Resposta De Milton Neves (parte 2 De 3)

(continuação do post anterior)

“A vergonha do Pacaembu”Por Adriano Silva22/11/2005 15:09

Domingo, 20 de novembro. Um dia épico, com contornos de grande decisão. Pacaembu lotado, torcida em festa, um sol de primavera achou espaço entre as nuvens de chumbo da capital paulista para cobrir com luz e calor o evento e tudo que ele prometia. Um dia que, em menos de 90 minutos, foi apequenado, atropelado, aleijado. O épico virou tragédia. Ou comédia. Para mim, que sou colorado, foi um dia amarguíssimo. E de um fel com matiz novo para mim. Tem sido comum para um torcedor do Inter ficar chateado com o time nos últimos anos. Por duas vezes não seguramos as calças na Bombonera, perdemos um Brasileiro para o Bahia em casa, perdemos duas Libertadores que estavam na mão – uma para o Nacional, outra para o Olympia, na semi, de virada em pleno Beira-Rio. Além disso, insistimos várias vezes com jogadores varzeanos que já indicavam ao torcedor mais atento, logo no começo da temporada, mais um ano de agruras – Claiton, Perdigão, Celso Vieira, Edu Silva, Leandro Guerreiro etc.Mas não me lembro de ter sentido antes essa sensação que tenho agora, de furto, de erro, de falta, de desmaterialização, de ausência forçada, de comida roubada, de injustiça, de latrocínio, de merecimento negado, de equívoco, de agressão moral e emocional, de torção do que é direito e legal e lógico.O Inter ontem, a meu ver, foi muito bem. Veio para ganhar do Corinthians, diante de um Pacaembu em festa, e ia ganhar. Jogando o seu jogo, que é o de colocar pedra sobre pedra, de construir o resultado aos poucos, sem estocadas lancinantes. Então sofremos um pênalti glamoroso, óbvio, paradigmático, exemplar, claríssimo, transparente, cristalino, irrefutável, quase ridículo aos 20 do segundo.OK, talvez o Corinthians viesse para cima e empatasse. Ou talvez viesse para cima e levasse mais um… OK, talvez Fernandão, que nunca errou uma cobrança na carreira, chutasse para fora ou nas mãos do goleiro. Muita coisa podia de fato ter acontecido naquela cobrança e nos 25 minutos de jogo que sobrariam depois dela. Muito jogo bom.Muitos minutos de suor, sangue no olho, marcação, quem sabe gols, que poderiam se inscrever nas melhores páginas do nosso futebol. Tudo isso foi negado, apagado, proibido. As melhores e as piores possibilidades de consecução daquele pênalti inequívoco – dependendo se você torce para o Inter ou para o Corinthians – foram impedidas de acontecer. A realidade foi roubada aos milhares de torcedores de ambos os times, aos milhões de telespectadores de todo o país, à própria história do Campeonato Brasileiro.Eis o que aconteceu: um assalto à realidade, aos fatos que foram deletados antes de acontecer.Assumo para mim que a grande probabilidade era a de que o Inter saísse do Pacaembu com os três pontos, em condições de brigar de igual para igual com o Corinthians nas duas últimas rodadas. E que final de Campeonato teríamos, com a disputa renhida por esses últimos seis pontos. O Corinthians continuaria levemente favorito. E talvez terminasse mesmo sendo o campeão. Mas o Inter teria tido o direito de lutar até o fim, direito que estava conquistando com hombridade no gramado do Pacaembu.Chegar a esse ponto, para o Inter, já era um missão hercúlea. E isso é o que incomoda mais, o que dói mais fundo. O Inter se superou nesta campanha – e foi o que se viu ontem, dentro do campo. Estava realizando uma possível trajetória de campeão, operando acima das suas condições naturais, na base da raça, da superação, do esquema tático, dos gritos do Muricy, da união de todos. E, quando está para cumprir a meta impossível, o Inter é surrado, currado, macerado por um erro (?) grotesco, grosseiro, patético, difícil de compreender e de aceitar de um juiz reincidente na arte de liquidar espetáculos. Ou seja – o Inter não foi derrotado por Tevez ou Carlos Alberto ou pelo colorado Nilmar, o que seria justo. Foi à lona com um golpe que não veio do adversário, como um boxer que fosse nocauteado pelas costas, pelo refere, com um murro na nuca.Perdi o paladar. Estou sem saber o que dizer – prova disso é que estou escrevendo tanto. Nem o que sentir.E peço desculpas pelo tom todo lúgubre, que não consigo evitar. Corinthians, é claro, não tem culpa de nada. Ao menos é o que imagino. Não tem culpa pelo Edilson, nem pelo Zveiter, nem pelo erro crasso que lhe garantiu três pontos contra o Paysandu, nem pela estupefação que Márcio Rezende causou ao país todo ontem, ao surrupiar o pênalti e, ainda, expulsar a vítima (Tinga) e trocar beijinhos ao final da partida com o agressor (Fabio Costa, um cidadão exemplar). Assim como não teve culpa quando Castrilli liquidou com a Lusa no Paulistão de 98, dando ao Corinthians a chance de ir à final para ser goleado pelo São Paulo.Mas convido você, torcedor corinthiano que me lê agora, a sentir um pouco, nesta sua conquista iminente do tetra, a senssaboria que eu estou sentindo aqui nesta minha iminência de perdê-lo.Porque eu acho que essa bile da derrota colorada tem que respingar um tanto no sabor da conquista corinthiana. Ao menos às papilas daqueles corintianos que só aceitam ganhar na bola, no campo, na justa disputa.Quanto a mim, salvo milagre (mas sou ateu e acredito mais no poder da MSI do que no poder da divina providência; ainda que, contradioriamente, ainda rogue e ore à justiça divina, porque a justiça dos homens não existe), peço inscrição no clube dos santistas que torceram em 95, dos atleticanos mineiros que torceram em 80, dos torcedores do Azulão que estavam em São Januário em 2000 etc.Essas são as lágrimas – de revolta e frustração – que eu tinha a derramar.

Um abraço e fique com Deus.Milton Neves, amigo.

Autor: Kazzttor

André Arruda dos Santos Silva, ou Kazzttor, é paulistano. Oriundo de família humilde, mas trabalhadora, viveu seus primeiros anos de sua infância no bairro do Ipiranga, cidade de São Paulo, e em seguida, mudou-se com sua família para Diadema, município vizinho, onde vive até hoje. Ativista, blogueiro, professor de informática, amante de tecnologia, esportes e artes, André procura em suas manifestações intelectuais escritas em seus blogs ou nas organizações as quais faz parte, mostrar um jeito mais humano, irreverente e diferente de ver e entender o mundo. Atualmente é universitário, bancário, participante de atividades sindicais, políticas e ideológicas, sempre tendo como objetivo buscar nos princípios éticos e de respeito mútuo a chave de uma sociedade mais harmônica e humanamente sustentável.

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