A dor de saber que é uma simples peça (com defeito)

Fiquei sabendo que sou uma peça de uma engrenagem selvagem e cruel. E estou gasta, defeituosa, não sirvo mais para os propósitos de um sistema que insiste em ser mecânico, triturador de almas, esmagador de corações. Vejo incrédulo todas as minhas verdades sendo rasgadas e jogadas ao vento, sob o retumbante sorriso de satisfação de quem me faz escárnio. Talvez se fosse Cristo, sentindo os golpes dos pregos prendendo pés e mãos contra a cruz, não sentiria a mais amarga das dores, o mais pungente dos suplícios. Pois a dor que sinto não mata o corpo, e sim, a alma. Sou um corpo desalmado encaixado em um sistema mecânico e feroz, destrutivo, maquiavélico.

Não se importam com minhas necessidades, sentimentos, defeitos. Me encaixotam em uma função e me dizem o que fazer, e tudo o que digo é indiferente para eles, são surdos para minhas opiniões. Há algum tempo vi a engrenagem e hoje me vejo dentro dela, castigado por ser uma peça imperfeita. Dói demais ver outras peças se desgastando, se corroendo até caírem e ser trocadas por peças novas, como se as primeiras fossem descartáveis. Mas as peças velhas que são mais tortas que as próprias engrenagens continuam na máquina, ordenando as peças novas a executar sob desgaste as funções que são incapazes de desempenhar. Temos que nos adaptar a rotinas que destroem nossas personalidades reduzindo-nos a clones de humanoides, sem expressão, sem opinião, sem pensamento. E ao ver isto me desespero, com um sorriso de pânico, clamando a todos as peças a se voltar contra as velhas e defeituosas peças que os oprimem, para que se reordenem e passem a funcionar harmoniosamente como um coração apaixonado. E enfim, estas peças voltariam a se tornar pessoas, e minha missão se faz cumprir: tornar o mundo mais humano e mais justo, com amor, lealdade, respeito, verdade e sentimento.

Ao perceber que meu sonho era impossível, chorei em silêncio, com a resignação dos bravos, mas com o lamento dos derrotados. Busquei um refúgio para o meu pranto, pois uma fortaleza não pode tombar diante da batalha, e mesmo vencida e tomada pelos ímpios, precisa ficar de pé, como monumento de uma outrora grandeza.

E da dor do momento, dos sonhos de outrora e da incerteza do futuro, fico com vontade de tornar o impossível, possível; de armar-me de ideias, munir-se de certezas e defender com palavras meus ideais, para que mostrem a que vim: mostrar que mentes precisam pensar, corpos precisam agir, corações precisam pulsar apaixonadas por uma vida que valha a pena.

E um dia, eu possa lembrar de hoje e dizer: as lágrimas de meu rosto tombaram uma alma antiga, mas surgiu uma outra nova e audaciosa, que fez cada gota de pranto ter valido a dor de outrora, mostrando como a vida é valiosa.

Autor: Kazzttor

André Arruda dos Santos Silva, ou Kazzttor, é paulistano. Oriundo de família humilde, mas trabalhadora, viveu seus primeiros anos de sua infância no bairro do Ipiranga, cidade de São Paulo, e em seguida, mudou-se com sua família para Diadema, município vizinho, onde vive até hoje. Ativista, blogueiro, professor de informática, amante de tecnologia, esportes e artes, André procura em suas manifestações intelectuais escritas em seus blogs ou nas organizações as quais faz parte, mostrar um jeito mais humano, irreverente e diferente de ver e entender o mundo. Atualmente é universitário, bancário, participante de atividades sindicais, políticas e ideológicas, sempre tendo como objetivo buscar nos princípios éticos e de respeito mútuo a chave de uma sociedade mais harmônica e humanamente sustentável.

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