Na parada: A igreja

Hoje iniciaremos uma série de artigos sobre a parada gay de São Paulo que ocorrerá no dia 26 de junho. E o primeiro artigo convida o leitor a debater sobre homossexualidade e religião.

Os grupos religiosos mais conservadores contestam a PLC 122 que criminaliza a homofobia no país. Segundo estes, a lei seria contra a liberdade de expressão religiosa, já que a doutrina religiosa prega a homossexualidade como um pecado e o homossexual um herege. De fato, há passagens da bíblia que atestam esta afirmação e que condenam o homossexual a ser tido como persona non-grata da sociedade cristã ideal. Entretanto, a própria Bíblia se for contextualizada e adaptada para os dias de hoje, nos mostra que a visão homofóbica de muitas entidades religiosas é distorcida e facilmente contestável.

O homossexual, o viciado, o mendigo e todos os marginalizados são hoje o que eram naquela época o leproso, o cego, a adúltera que também eram marginalizados e perseguidos pela sociedade. Agindo assim, os líderes religiosos que pregam a homofobia estão contradizendo os próprios princípios cristãos que defendem. Pois Jesus Cristo mostrou que todas as pessoas, sem distinção, podem ser cristãs aceitas e são dignas de compaixão e misericórdia.

Assim sendo, os conceitos cristãos elementares são a síntese dos conceitos humanos universais e ideais. Mas a distorção desses conceitos é o que faz com que muitas igrejas tenham esse papel segregatório. Observa-se uma leitura literal e não contextualizada das escrituras, e isto somado a termos líderes religiosos sem formação litúrgica adequada, os chamados obreiros e “Pastores de fundo de quintal”, que pregam a palavra de Deus sem conhecê-la plenamente. Também não há em muitos cursos litúrgicos um conhecimento apurado das escrituras e uma contextualização que promova um caráter inclusivo à religião. Sem dúvida, parte da distorção que equivocadamente relaciona homofobia e religião tem esse fato como uma das causas.

A história do cristianismo também ajuda a explicar a origem da homofobia em seu contexto filosófico. Quando o cristianismo surgiu, os cristãos pioneiros eram oprimidos pelos romanos que possuíam uma vida de orgias e o comportamento casto dos cristãos procurava se opor aos dos romanos. Além disso, havia uma necessidade de combater a superioridade numérica de outros povos por meio da procriação, que é a constituição de uma unidade familiar com numerosos descendentes. Esta política procriatória fez com que a população cristã crescesse em progressão geométrica e se tornasse a mais populosa do mundo antigo. Assim sendo, todo ato que não colaborasse com essa doutrina (a homossexualidade) era tido como transgressor e patológico. Hoje não existe a necessidade de procriação para o estabelecimento de uma doutrina religiosa, então por que a homossexualidade ainda é banida das igrejas? Por questão de controle. As igrejas mais homofóbicas são as que mais detém o controle e alienação sobre seus fieis. Um grupo se torna mais unido e disciplinado quando encontram um denominador comum, e a motivação é maior quando este denominador provém de uma possível ameaça. Isso alimenta o ódio como uma forma de auto-defesa e assim, os homossexuais passaram a ser tidos como inimigos da doutrina cristã, como método disciplinar de controle. Outra justificativa plenamente observável é de que a comunidade LGBT por ser marginalizada se torna vulnerável e frágil, e seria tecnicamente uma demonstração de força aniquilá-la.

Contudo, nota-se claramente um paradoxal comportamento que é cego e alienado. O comportamento nazi-facista destas organizações religiosas, as quais ferem até mesmo seus próprios princípios fundamentais em nome de poder e influência, disfarçados de moralismo, devem ser reprimidos com sabedoria e conhecimento. Se há em outras passagens das escrituras outros tipos de restrições que foram abandonadas pela comunidade cristã por não ser compatíveis com nosso modo atual de viver, por que então abandonar a homofobia e considerar a todos como filhos de Deus?

Autor: Kazzttor

André Arruda dos Santos Silva, ou Kazzttor, é paulistano. Oriundo de família humilde, mas trabalhadora, viveu seus primeiros anos de sua infância no bairro do Ipiranga, cidade de São Paulo, e em seguida, mudou-se com sua família para Diadema, município vizinho, onde vive até hoje. Ativista, blogueiro, professor de informática, amante de tecnologia, esportes e artes, André procura em suas manifestações intelectuais escritas em seus blogs ou nas organizações as quais faz parte, mostrar um jeito mais humano, irreverente e diferente de ver e entender o mundo. Atualmente é universitário, bancário, participante de atividades sindicais, políticas e ideológicas, sempre tendo como objetivo buscar nos princípios éticos e de respeito mútuo a chave de uma sociedade mais harmônica e humanamente sustentável.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s