Ensaio sobre a alienação (está tudo errado)

A sociedade humana possui diversas correntes de pensamento em diversas áreas do conhecimento. Algumas convergem, mas muitas divergem entre si. Nos vemos em um permanente dilema entre correntes e doutrinas divergentes, que nos cooptam para um lado ou outro. No entanto, podemos perceber uma certa incoerência nessas doutrinas, se estas não mudam ou se adaptam com o tempo.

As capacidades de exploração do universo por meio do conhecimento são infinitas. No entanto, alguns dos detalhes desse universo não obedecem a uma lógica, ou seja, não podem ser explicados sob um conceito meramente definido, pois são objetos abstratos. O grau de abstração de um objeto é muitas vezes ignorado pelas correntes de pensamento, pois muitas delas tem uma definição concreta e definida de uma realidade. Assim surge uma incoerência, pois um objeto abstrato não poderia ser descrito de forma concreta, pois este não teria suas possibilidades e detalhes totalmente definidas, pela própria natureza abstrata do objeto, e para que essas possibilidades sejam exploradas, seria preciso aumentar o grau de complexidade do conceito concreto. Assim teríamos uma estrutura conceitual similar a de andaimes de um edifício de formato não padrão, circundando-o, mas sem exibir sua forma real, obscurecendo-o. E isto gera uma distorção, pois a realidade apresentada difere da realidade nativa do objeto em questão.

Em áreas do conhecimento de ciências humanas como sociologia, política e psicanálise, são onde existem as maiores discrepâncias. Isto ocorre pois, como existe no ser humano há razão e emoção, muitas das nossas conclusões, atitudes, opiniões e pensamentos não tem como motes a lógica. Isto gera uma cultura de buscar uma lógica para tudo, uma justificativa baseada em argumentos concretos de um dado objeto ou realidade. Esta é uma grande deturpação, tanto no conhecimento criado, mas quando este conhecimento é repassado a outras pessoas. Isto faz com que algumas correntes de pensamento apenas privilegiam alguns detalhes do objeto tendo assim uma visão distorcida da realidade. Algumas dessas correntes são usadas de forma mais distorcida ainda como ferramentas de alienação.

A alienação é uma ferramenta de poder. Com base em uma doutrina ou ideologia, um alienador coopta um indivíduo, por meio de persuasão, a aceitar e defender essa doutrina, sem questioná-la, e rejeitando opiniões que se opõem a essa doutrina. Este indivíduo se torna alienado e abdica de seu poder intelectual em prol da doutrina e/ou do alienador. E isto é perigoso. Por conveniência ou aceitação social, deixamos de exercitar nosso senso crítico para aceitar o que comumente é aceito. Isto faz com que doutrinas se solidifiquem e tornem mais difíceis seus questionamentos ou contestações. E essas doutrinas são legitimadas pela tradição, tornando-se dogmas. A tradição se torna uma identidade de um grupo humano e este, por sua vez, irá defendê-lo, para garantir sua identidade e por conseguinte, sua existência. Isto faz com que estes grupos humanos criem realidades internas e visões de mundo próprias, em muitos casos, abstrações do mundo real, ou deturpações da realidade usando-se dessas doutrinas como lógicas para realizar sua leitura.

O ser humano é um ser social, e também um ser que possui necessidades individuais. Há uma certa confusão entre o eu social e o eu individual, pois uma pessoa não é auto-suficiente, ou seja, não é capaz de satisfazer suas necessidades sozinho. O que se questiona nesse processo de alienação é a sublimação das necessidades individuais ou coletivas em prol de uma doutrina ou necessidade individual e patriarcal de um líder carismático. Monopolizar o pensamento para uma única fonte é um mal, se utilizado para promover desigualdades ou pregar ideologias que contrariam a natureza humana como ser individual e social.

O papel da crítica é importante contra a alienação pois se contrapõe a sua causa: a doutrina a qual a alienação se baseia. Respeitar as individualidades e particularidades de um indivíduo é vital para uma sociedade harmônica e dinâmica, pois equilibra as relações de poder a um nível em que todos possam se tratar como iguais, mesmo sendo diferentes. Grupos com características comuns podem conviver com indivíduos ou grupos antagônicos a seus conceitos, desde que ambos os lados respeitem seus espaços e não queiram invadir ou destruir o espaço alheio. Isto seria possível se não houvesse ganância por poder ou influência, gerando assim os conflitos.

O ego é o fiel da balança neste processo. Pois a ganância somente existe quando o ego se sobrepõe ao ser social. E o ser alienado tem seu ego atacado quando percebe que sua doutrina também é atacada por outra. O ser humano recebe ao longo da vida diversas informações as quais tomam para si como verdades. O valor de seu caráter é medido pela comprovação alheia de suas verdades. Isto o torna confiável e sociável. Quando sua verdade é atacada, sua confiança também é atacada e assim, seu ego é ferido. Um ser alienado possui uma baixa auto-estima, já que abdicou de sua verdade para vivenciar outra externa. Assim, este agarra e defende cegamente essa verdade externa, tomando a si como uma verdade própria. Isto também o torna menos racional e mais passional, pois não desenvolveu seu senso crítico e seu raciocínio lógico. Este grau de passionalidade pode levar à insanidade e a ações que contrariam a lógica humana e social, tornando-os agentes de violência, intolerância e disputa de poder.

Tudo isto nos faz concluir que não há uma verdade única. Mas que todas as verdades devem ser respeitadas. Ou seja, tudo está errado.

Autor: Kazzttor

André Arruda dos Santos Silva, ou Kazzttor, é paulistano. Oriundo de família humilde, mas trabalhadora, viveu seus primeiros anos de sua infância no bairro do Ipiranga, cidade de São Paulo, e em seguida, mudou-se com sua família para Diadema, município vizinho, onde vive até hoje. Ativista, blogueiro, professor de informática, amante de tecnologia, esportes e artes, André procura em suas manifestações intelectuais escritas em seus blogs ou nas organizações as quais faz parte, mostrar um jeito mais humano, irreverente e diferente de ver e entender o mundo. Atualmente é universitário, bancário, participante de atividades sindicais, políticas e ideológicas, sempre tendo como objetivo buscar nos princípios éticos e de respeito mútuo a chave de uma sociedade mais harmônica e humanamente sustentável.

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