O grito

Quatro de julho de dois mil e doze. Um grito, lágrimas. Uma noite em que pareceu não findar. Um dia para guardar eternamente dentro de nossos corações.

Eram cerca de onze e dez da noite, quando ouviu-se um grito de um homem em um ponto de ônibus, na zona Sul de São Paulo. Este mesmo homem junta as mãos em prece. Parecia agradecer. Chora.

O ônibus que esperava chega e ele parte. No ônibus, a tensão de acompanhar um fato aflitamente à distância. Por meio de fones de ouvido, ouvia atentamente os sons que deviam sair de um rádio. Tapava os olhos, os ouvidos, se contorcia, se recolhia, se encolhia. Parecia ter muita fé, mas também muito medo. Um paradoxal pressentimento de fracasso e triunfo que duelavam em sua mente como em um jogo de xadrez. Mas às vinte e três horas e trinta minutos veio o xeque. Gritos, tapas no vidro do ônibus e uma certeza: faltava muito pouco para a glória. Sacou de sua bolsa uma camiseta e vestiu. Agora tudo fazia sentido. Aquele homem é corintiano. A partir daí, os minutos se seguiram intermináveis. A aflição era a mesma, mas para que o relógio corresse depressa.

Poderíamos imaginar o que se passava na cabeça deste homem, mas estes minutos eram o que menos importavam. Em momentos assim costuma passar um filme em nossa mente. As glórias, os fracassos, as alegrias e tristezas de uma cumplicidade entre o homem e sua paixão. Entre um time de futebol e sua torcida. Talvez Emerson não imagina a grandeza de seu gesto, ao marcar o gol derradeiro. Talvez não imaginemos que depois de tanto escárnio, de tanto sofrimento, de engolir em seco toda a opressão, a volta por cima tivesse como desabafo, lágrimas. Apenas lágrimas poderiam traduzir aquela sensação de alívio, e enfim, triunfo. Apenas lágrimas seria a reação mais condizente e passional, naquele momento. Não eram lágrimas de dor ou tristeza, eram de alegria, de felicidade. Uma comoção que uma nação fiel sentia e outra presenciava por meio dos olhares magnéticos transmitidos a milhões de pessoas pela televisão e a outros tantos milhões que recebiam os fatos ouvidos por gogós emocionados dos cronistas do rádio.

Assim como este homem no ônibus. Este chegara ao ponto final para embarcar em outro. Mesmo a viagem ser curta, parecia interminável. O tempo custava a passar. Um celular com TV de um passageiro mostrava os últimos momentos. Nos rádios já se tocava o hino do Corinthians. O fato se confirmava. Quando o árbitro anunciou o fim da partida, parecia orquestrado. O homem desceu do ônibus no mesmo instante em que o jogo findara. Ele caminha, olha para as pessoas que comemoravam nas ruas, dando por conta que seu sonho se realizou. Chora copiosamente. Bate no peito. Entra na rua, abraça os colegas. Corre para casa, guarda suas coisas e volta para a rua com um megafone. Acabou. Era festa. Festa na favela. Eram quatro da manhã e ainda se ouviam fogos de artifício. Foi um réveillon corintiano. Um novo tempo havia chegado, o passado havia ficado para trás. Mas era o passado ruim e não o bom, que fora sepultado ali, ilustrado na melodia de Chico Buarque em que “sem perceber que era subtraída, em tenebrosas transações”. Mas esta mesma música fala de redenção, como a vivida naquela noite em que em festa, um povo ensandecido fazia um imenso carnaval.

Todo corintiano se declara maloqueiro e sofredor, e ainda agradece a Deus por isso. Pode parecer uma heresia para os ortodoxos, mas é divinamente humano esse auto-conceito. Pois a humildade em admitir que não é perfeito (maloqueiro), o orgulho em lutar (sofredor) e a fé que se tem (graças a Deus), são tão verdadeiros, a ponto de Deus ter compaixão naquele dia e sentenciar: “Hoje é o seu dia, você merece essa glória”.

Por mais que eu seja suspeito a dizer, vejo um grau de justiça e merecimento na conquista do Corinthians. Mesmo que o tal homem desta história tenha sido eu, não seria adequado narrar em primeira pessoa, pois não seria digno de um entendimento a emoção e a paixão de viver essa religião chamada Corinthians, com mais de 30 milhões de fanáticos fiéis. Pois existe ali um código que só nós corintianos compreendemos, que pulsa no coração a cada segundo de jogo. Tanto que não consigo mais traduzir ao incauto leitor este fato, pois o que houve não pode ser descrito em palavras, mas em sentimentos de alegria, fé, esperança, vontade, esforço, devoção, que só podem ser expressos no olhar, em gestos, em lágrimas, e em um grito que poderia simbolizar tudo isso de forma abstrata:

VAI CORINTHIANS!

Autor: Kazzttor

André Arruda dos Santos Silva, ou Kazzttor, é paulistano. Oriundo de família humilde, mas trabalhadora, viveu seus primeiros anos de sua infância no bairro do Ipiranga, cidade de São Paulo, e em seguida, mudou-se com sua família para Diadema, município vizinho, onde vive até hoje. Ativista, blogueiro, professor de informática, amante de tecnologia, esportes e artes, André procura em suas manifestações intelectuais escritas em seus blogs ou nas organizações as quais faz parte, mostrar um jeito mais humano, irreverente e diferente de ver e entender o mundo. Atualmente é universitário, bancário, participante de atividades sindicais, políticas e ideológicas, sempre tendo como objetivo buscar nos princípios éticos e de respeito mútuo a chave de uma sociedade mais harmônica e humanamente sustentável.

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