A república do Avatar

Muito observo na sociedade em geral, nas redes sociais, no trabalho, nos estudos, locais e eventos públicos o comportamento humano e o que influencia tal comportamento. E percebo, com certa resignação, uma aparente superficialidade das pessoas, criando “avatares” delas mesmas, de acordo com a ocasião. Chega a ser paradoxal tais mudanças de comportamento, pois uma das necessidades humanas consiste na aceitação por seus semelhantes. Fica claro que pelas exigências de cada grupo social para ser aceito, um indivíduo precisa se adaptar a essas exigências, mudando sua forma de agir, de vestir, de se comportar, de se expressar e de opinar, para se adequar a essas exigências, e enfim, ser aceito.

Isso funciona como um código, uma senha, uma identidade social, que identifica e associa esse indivíduo a esse grupo. Porém, a necessidade de ser aceito, aliada ao formalismo de uma sociedade que se encontra em uma situação de crise de identidade, por conta de se basear em valores que não são fundamentais, em contraponto a valores que eram tidos como fundamentais e não mais o são, nos impõem uma controversa atitude de “dançar conforme a música” e criar avatares de nós mesmos.

Em empresas tradicionais, faculdades, igrejas, eventos esportivos, grupos de interesses comuns e redes sociais é evidente a multiplexação do caráter de um indivíduo. Para cada local e cada situação, vejo uma mesma pessoa se comportar e até mesmo opinar de uma forma diferente. Vejo pessoas buscando se adaptar a grupos sociais fraudando seu caráter para que esse conceito fictício possa ser aceito nesse grupo. E este é o maior mal do homem, quando vê que a trapaça logra êxito, pois este toma esse procedimento como uma solução oportuna, e passa a adotá-la sistematicamente para ser incluso em outros grupos. Os casos mais críticos são quando esses indivíduos abandonam por completo seu real caráter para dar vida a seus avatares. Por todos esses avatares serem conceitos fictícios e artificiais, seu real conceito se perde, assim como seus valores, fazendo com que esse indivíduo se perca em valores superficiais ou passe a ser um ser alienado, alheio a toda ou boa parte da realidade que o circunda.

Não há como, em um modelo capitalista e consumista, combater ao viciante e perverso comportamento de avatar. Pois a mídia, entidades tradicionais como a igreja, grandes corporações e governos nos fazem engolir seus conceitos, forçando-nos a ser o que eles querem, e não o que realmente somos. Parece ser difícil conciliar este dilema, mas é preciso resistir a criar um avatar, buscando ser nós mesmos em todas as ocasiões, mesmo que se contestem nosso comportamento. O fato é que nossa essência seja preservada, ou estaremos fadados a deixá-la escondida em nossos lares, ou perdida em nossas memórias.

Autor: Kazzttor

André Arruda dos Santos Silva, ou Kazzttor, é paulistano. Oriundo de família humilde, mas trabalhadora, viveu seus primeiros anos de sua infância no bairro do Ipiranga, cidade de São Paulo, e em seguida, mudou-se com sua família para Diadema, município vizinho, onde vive até hoje. Ativista, blogueiro, professor de informática, amante de tecnologia, esportes e artes, André procura em suas manifestações intelectuais escritas em seus blogs ou nas organizações as quais faz parte, mostrar um jeito mais humano, irreverente e diferente de ver e entender o mundo. Atualmente é universitário, bancário, participante de atividades sindicais, políticas e ideológicas, sempre tendo como objetivo buscar nos princípios éticos e de respeito mútuo a chave de uma sociedade mais harmônica e humanamente sustentável.

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