Os ‘Days After’

A última semana foi estranha. Reviravoltas de todas as formas, com uma inexplicável tristeza, um maldito karma que me corroeu, de modo a me afogar em uma profunda melancolia. A melancolia cega, leva nossas perspectivas a uma perversa escuridão, roubando aos poucos nosso entusiasmo, nossa força, e por fim, nosso futuro.
Há muito tempo não sonho. Minhas ilusões me atormentam o dia inteiro, me assola o tédio, o rancor, a inveja e por fim, a vida vai se esvaindo aos poucos, tal qual o sangue no asfalto escorrido de um cadáver. Sem inspiração, sem memória, sem conhecimento, sem vontade, estou perambulando pelas rotinas tal qual um zumbi, um morto ambulante pelas ruas, entorpecido pelo mal que me sucumbia ainda mais. Um pesadelo interminável. Um tenebroso purgatório, onde permanentemente pago por meus pecados. Uma delirante paranóia que me arrasta a um estágio de letargia. Um ciclo vicioso, destrutivo, arrebatador.
Desse pesadelo precisava acordar, do contrário, sucumbiria a um estágio vegetativo de melancolia profunda e insanidade. Era preciso um basta, e começou semana passada, ao conversar com a psicóloga. Falei de muitos dos meus ais. Minhas tristezas, frustrações e desatinos. Precisava entender o que me consumia, o que me impedia de seguir adiante, o porquê de meu desânimo. Aos poucos vi que meu coração estava preso. E meu corpo em fuga, impedia que as raízes de meus males fossem resolvidos. E abraçava novos ares, e buscava novos lugares, novas inspirações, para que minha máquina de sonhos ficasse abastecida, nutrida de ilusões. Mas de tantas ilusões, minha alma ficou obesa, ficou cheia, sem possibilidade de digerir todas as ideias, todos os sonhos que colhi nos verdejantes campos da vida. Era preciso me desfazer de algo, me desfazer de todo o peso que impedia de seguir adiante.
Na mesma noite da consulta com a psicóloga, eu saí a noite, caminhei por um longo tempo, pensando, pensando e conversando comigo mesmo. Precisava processar toda aquela nova e difícil realidade. Eu estava deprimido. Não aguentava mais aquela verdade que arremessou meus anseios contra o chão, despedaçando-os como frágeis cristais. Estava perdido, sem ter para onde ir, anônimo, solitário, indefeso. Era preciso agir de alguma forma, um dia de cada vez. Uma vida de cada vez. Um sonho de cada vez.
O primeiro ‘day after’, vi a rotina. Acordar tarde, me arrumar, me irritar com as coisas não dando certo, os atrasos, os desacertos, as cobranças. Incrível como o desânimo nos paralisa. Vê-se tudo com cara de paisagem, não se reage, aceita, não se indigna, capitula, não se nega, se curva.
O segundo ‘day after’ foi o do desatino. Novo atraso, nova cobrança, nova letargia, mas com um fio de esperança que se torna um álibi do tédio: fim de semana chegando, tempo de renovar as energias, tempo de quebrar os paradigmas aos quais fomos impostos. Uma doce ilusão, mais uma. Pois é tamanho o tédio, que a única imagem de lembrança de um fim de semana, é a das paredes do quarto. Insano, estúpido, cruel destino de 48 horas.
O terceiro ‘day after’ foi o do trabalho. Coloquei as tarefas que precisava colocar em dia. Consertei coisas, limpei a pauta. Vi que a palavra “ajuda” tem um sentido reflexivo. Você se ajuda ao ajudar pessoas, se sente útil. Se sente importante. Quando se compartilha aquilo que tem de valor com outras pessoas, um pouco de você fica gravada nas pessoas com quem compartilhou, e isto te engrandece, te eleva a um patamar superior, divino, que o torna forte, importante. Sua alma e seu ego se transformam, e você recebe de volta na satisfação alheia, um regozijo sem par. Os maiores nomes da humanidade são tido como tais por compartilharem seus dons com o mundo, e infelizmente, poucos aprenderam a lição.
O quarto ‘day after’ foi o do desapego. Saí de casa, andei muito, vi meus vícios e meus defeitos passarem perto, mas deixei-os em algum lugar pelo caminho. Nada de computadores, celulares, jogos, cigarros, pensamentos ruins, malícia, miséria. Enfrentei o tédio, chutei o marasmo e fiz um golaço. Ao jogar bola com desconhecidos, vi a necessidade de interagir e ver o quanto é importante exercermos nossa humanidade. Olhamos torto, desconfiamos, tratamos com indiferença, e isto nos desumaniza, impede de buscar em nós a essência que nos faz felizes, que é a inspiração. Ao olharmos com cumplicidade, demonstrarmos confiança, tratamos com empatia, nos aproximamos do próximo, e nosso intelecto evolui. Ah se fosse possível as pessoas entenderem que é preciso menos ‘EU’s’ e mais ‘NÓS’es’.
O quinto ‘day after’ foi o da percepção da qualidade frente ao status quo horripilante da quantidade. Fui destituído de uma tarefa à qual fui designado, a pretexto de que não eram mais necessários meus serviços. Fica claro a tratativa que, para o status quo é de maior valia 100 trabalhos medíocres ao dia, do que 10 trabalhos excelentes, o que revela uma triste inversão de valores. Fazer bem não é importante, fazer muito é que é, e fazendo isto com menos tempo e menos custo. Sei que meus atrasos e minha produção abaixo do que se espera o status quo, influíram na minha destituição, porém é observável o tratamento indiferente de descartar pessoas como se descarta lixo. Sabemos nossos valores, e só estes são vistos pelas outras pessoas, quando cultivamos nossos valores nas ações que praticamos. E a ausência destes valores geram falhas no processo, pois retiram o esmero necessário para que este logre êxito. Buscar nossos valores e empreendê-los em nossas ações é uma arma poderosa para fazer as coisas bem feito. E tudo deve ser realizado no tempo certo, pois algo empreendido rápido demais não matura, não se define, sequer se estabelece.
Foram cinco dias após um dia que poderia ser negro, mas que se revelou que existe uma luz ao fim do túnel, mas que precisamos correr em direção a ela para que deixe de se tornar distante.

Autor: Kazzttor

André Arruda dos Santos Silva, ou Kazzttor, é paulistano. Oriundo de família humilde, mas trabalhadora, viveu seus primeiros anos de sua infância no bairro do Ipiranga, cidade de São Paulo, e em seguida, mudou-se com sua família para Diadema, município vizinho, onde vive até hoje. Ativista, blogueiro, professor de informática, amante de tecnologia, esportes e artes, André procura em suas manifestações intelectuais escritas em seus blogs ou nas organizações as quais faz parte, mostrar um jeito mais humano, irreverente e diferente de ver e entender o mundo. Atualmente é universitário, bancário, participante de atividades sindicais, políticas e ideológicas, sempre tendo como objetivo buscar nos princípios éticos e de respeito mútuo a chave de uma sociedade mais harmônica e humanamente sustentável.

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