Cadê o cartão, professor?

Era o dia 12 de junho de 2014. A copa do mundo, enfim, se iniciava. Eu estava na Arena Corinthians, atuando como voluntário da Copa do Mundo, aguardando o retorno de um coordenador de Tecnologia, área que escolhi para voluntariar. Eram 16:50. Estava na zona mista, uma área do estádio que permite que os jornalistas entrevistem os atletas. Atletas perfilados, hinos em execução. Pude ouvir o hino brasileiro cantado pela torcida à capela, prova que a FIFA deveria abolir essa história de hino de 90 segundos. Mas o que se ouviu depois foi estarrecedor. Em coro ouviu-se a maior demonstração de desrespeito que um povo poderia fazer ao seu próprio representante. Mandaram a presidenta tomar naquele lugar.

Depois do trabalho, pude circular pelas áreas das torcidas. Não vi criança de pé no chão, não vi senhora de olhar sofrido, não vi senhor de mão calejada. Copa do mundo é um evento elitista, isto é fato. Mas o que tentou-se fazer aqui no Brasil, foi sim, um ato de bastante coragem. Imagine, você, senhor e senhora, empresário, profissional liberal, classe média, que pagou de 600 a 2000 reais para ver uma abertura de Copa do Mundo, ser “obrigado” a deixar a comodidade de usar o carro, para ir de trem ou metrô, para ir a um longínquo lugar da cidade de São Paulo, onde só tem gente pobre e miserável (reitero que essa é a opinião dessa gente, não a minha).

Perguntaria a estas pessoas porque xingaram a Dilma, mas não tive coragem. A pergunta é o mais eficaz instrumento de reflexão, não para quem pergunta, mas para quem responde. E imagino que uma reflexão provoca reações indesejáveis em pessoas ignorantes e sem consciência do que fazem, pois podem-nas levar a uma verdade intrigante, e auto-ofensiva, corrosiva ao próprio ego.

Foi uma grande demonstração de analfabetismo político, até porque estão usufruindo de um evento provido pelo atual governo que o insultaram. Depois nada adianta culpar a presidente se colocam no congresso canalhas e sanguessugas, que parasitam o estado com corrupção em troca de promessas de governabilidade. Terceiro que no próprio estado de São Paulo temos um exemplo grave de corrupção e cartel para o metrô e CPTM. De onde vem o rio de dinheiro que financia as campanhas bem-feitas do PSDB? Só da elite quatrocentona que o apoia não é suficiente.

Mas voltemos ao nível de educação das pessoas presentes. Eu já escrevi a respeito do modelo educacional aplicado no Brasil. É um choque de realidade pessoas que foram disciplinadas, em vez de educadas, ver um estádio de futebol sem grades, sem fossos, apenas com a proteção por Stewards, com banheiros fartos, sala vip, cadeiras numeradas em todo canto, visão plena do campo em qualquer lugar do estádio, estádio moderno. Não tinha o que reclamar, em relação ao que já tinha. Sobrou para a Dilma.

Se as pessoas que xingaram a presidenta, fossem só um pouco mais inteligentes, não conseguiriam xingar ninguém, pois apesar da culpa que a Dilma carrega, por ser a suprema mandatária da nação, ela não carrega essa responsabilidade sozinha. E a lista de pessoas responsáveis seria tão extensa, que uma copa e uma olimpíada, quiçá um século, não bastariam para xingar todo mundo que nos colocou nesta situação.

Em suma, xingar foi um ato tolo, e será hipócrita, se o povo que xingou Dilma, votar em outubro com a mesma inconsequência que teve ao xingar a presidenta. Cadê o cartão pra essa gente?

Autor: Kazzttor

André Arruda dos Santos Silva, ou Kazzttor, é paulistano. Oriundo de família humilde, mas trabalhadora, viveu seus primeiros anos de sua infância no bairro do Ipiranga, cidade de São Paulo, e em seguida, mudou-se com sua família para Diadema, município vizinho, onde vive até hoje. Ativista, blogueiro, professor de informática, amante de tecnologia, esportes e artes, André procura em suas manifestações intelectuais escritas em seus blogs ou nas organizações as quais faz parte, mostrar um jeito mais humano, irreverente e diferente de ver e entender o mundo. Atualmente é universitário, bancário, participante de atividades sindicais, políticas e ideológicas, sempre tendo como objetivo buscar nos princípios éticos e de respeito mútuo a chave de uma sociedade mais harmônica e humanamente sustentável.

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