Enquanto não entendermos que somos iguais, teremos que mostrar por que não somos diferentes

André Arruda comenta a questão da luta pela convenção social atrasada e injusta que vivemos, que subjuga aqueles que não pertencem a esse padrão a uma situação marginal.

Ontem foi o dia internacional da mulher. Foi um dia marcado fortemente por manifestações em todo mundo pela igualdade de gênero, luta mais que centenária, mas que ainda não atingiu plenamente seus objetivos. Eu não escrevi nada para a ocasião, até mesmo para não parecer oportunista. Pois a luta aqui é para que possamos levar a crer a todos que defendem o senso comum de normas de superioridade, de que não existe nenhum ser humano mais superior que outro, por condição de gênero e identidade de gênero, cor, orientação sexual, crença, nacionalidade, ausência ou presença de alguma particularidade, ou qualquer outra característica que diferencie uma pessoa de outra. Diferenças são propostas como vantagens ou desvantagens competitivas por mera convenção leviana. Leviandade esta, convencionada por grupos que se entitulam dominantes, e que tecem essas convenções com o único intuito de servir a seus interesses dominantes. Não obstante que aqueles que ousam subverter a essas convenções, de uma forma ou de outra, acabam perseguidos.

Os dias que celebramos todos os anos a luta pela igualdade, como o dia da mulher, do orgulho LGBT, da consciência negra, e outros, não servem apenas como uma homenagem, e sim como um símbolo de luta contra a segregação ditada por essas convenções. Mas por muitas vezes, vemos de forma velada e até mesmo escancarada, o escárnio e a hipocrisia que algumas pessoas e grupos levam a questão da igualdade no grupo social. As infelizes declarações do presidente Michel Temer, mostram uma visão patriarcal e machista da mulher pelo homem, na qual, sua função é apenas acessória, de ajudante de marido, de coadjuvante da sociedade. Também vemos empresas que falam abertamente em apoiar a mulher em cargos de gestão, mas se não definir metas de participação feminina em cargos de alta gestão e promover a abertura para a mulher na gestão empresarial, esse apoio não passa de um discurso demagogo.

Certa vez, vi na televisão uma apresentação de uma médica cadeirante, sobre a questão da acessibilidade. Ela disse que grupos de pessoas com deficiência decidiram que, para que a assesibilidade fosse de fato efetiva, era necessário a participação das próprias pessoas com deficiência na elaboração das soluções e decisões. Assim surgiu um termo que pode ser aplicado a qualquer grupo que almeja a igualdade: “nada se decide sobre nós, sem nós”. E isso é perfeitamente coeso, pois o ponto de vista do espectador, nem sempre é o mais adequado para se tomar uma decisão. Não se pode estabelecer uma política de combate ao racismo sem os afrodescendentes, ou uma política de combate a homofobia sem a presença de LGBT’s.

E é aí que se encontra o cerne da desigualdade. Está no ego humano a defesa de seus próprios interesses. E aqueles que estão no comando de governos e corporações são aqueles que, em sua maioria, defendem as convenções que não são igualitárias. Tanto é que vemos claramente as distorções no mercado de trabalho, no tocante ao que essas convenções chamam de “minorias”, pois dentro de um grupo fechado e definido por estas convenções, estes grupos são de fato minoria. Porém, ao ampliarmos o foco para a população inteira, vemos que não se trata de uma minoria e sim de um grande contingente de pessoas marginalizadas por uma convenção social atrasada e injusta.

Esse padrão social convencional só irá se colapsar se as forças que as combatem entenderem que unidos e solidários, poderão vencê-los, e com isto instituir uma nova forma de relação social e humana, baseado não nas diferenças e sim nas capacidades de cada um. A luta do trabalhador, da mulher, do negro, do LGBT, das pessoas de crença de matriz africana e de tantas outras que são marginalizadas de alguma forma pela sociedade da convenção social, é uma luta que pode vista como conciliadora, inclusiva e poderosa, se articulada.

Enquanto não entendermos que somos iguais, teremos que mostrar por que não somos diferentes.

Autor: Kazzttor

André Arruda dos Santos Silva, ou Kazzttor, é paulistano. Oriundo de família humilde, mas trabalhadora, viveu seus primeiros anos de sua infância no bairro do Ipiranga, cidade de São Paulo, e em seguida, mudou-se com sua família para Diadema, município vizinho, onde vive até hoje. Ativista, blogueiro, professor de informática, amante de tecnologia, esportes e artes, André procura em suas manifestações intelectuais escritas em seus blogs ou nas organizações as quais faz parte, mostrar um jeito mais humano, irreverente e diferente de ver e entender o mundo. Atualmente é universitário, bancário, participante de atividades sindicais, políticas e ideológicas, sempre tendo como objetivo buscar nos princípios éticos e de respeito mútuo a chave de uma sociedade mais harmônica e humanamente sustentável.

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