Brasil: futebol e carnaval, experiência pessoal

Sou Corinthians desde criança, pra ser mais exato desde 1988. Sofri em 1993 com a perda do título para o Palmeiras, mas pude ir a forra dois anos depois. Foi em 1999 meu primeiro jogo no estádio, jogo de libertadores, o único que eu fui. Foi contra um time argentino, passamos nos pênaltis. Vi marmanjo chorar que nem criança no tobogã do Pacaembu.

Os anos se seguiram e sempre que podia, ia aos jogos do Corinthians. Vi vitórias, derrotas e até comemorei um paulista no Morumbi. Tinha alguma coisa de mágico ao ver um jogo no estádio.
Fui voluntário na Copa das confederações em 2013, já conheceu os bastidores de um estádio? Ainda mais sendo este o Maracanã. Vi um jogo de seleção pela primeira vez e tive a oportunidade de ver o último treino da seleção brasileira antes daquela histórica final contra a Espanha. No ano seguinte fui voluntário na copa do mundo. Desta vez foi na arena do Corinthians. Tinha torcedores de tudo quanto era time entre voluntários, tinha estrangeiros, tinha palmeirenses, são-paulinos, santistas e pessoas de diversas partes ajudando na copa. Depois eu fui assistir muitos jogos na arena.
Também foi incrível minha segunda passagem pelo Rio de Janeiro como voluntário nos jogos olímpicos. Foi uma festa. Ainda mais quando o futebol masculino ganhou o ouro contra a Alemanha. Mas queria que as mulheres tivessem ganhado. Uma pena.

Quanto ao carnaval eu desde criança gostava. Claro que os moralismos de minha família me fizeram desanuviar um pouco meu amor por essa época. Mas a primeira escola de samba a qual torci foi a Rosas de Ouro. A Gaviões, por razões óbvias foi a segunda, mas me cativou mesmo da Gaviões foram os dois sambas-enredo memoráveis da década de 90. Depois eu pude ver de perto os carnavais de balada e depois os bloquinhos, já muitos anos depois. Mas eu tinha um desejo de desfilar por uma agremiação. Já tinha feito isso em Diadema, pela Raposa do Campanário. Hoje eu vejo com nostalgia e com bom humor as piadas sobre a Raposa, mas foi a primeira escola de samba que desfilei, inclusive sendo campeão do carnaval da cidade por esta escola. Foi uma experiência singela, mas trouxe pras experiências que tive o ano passado e este ano.

Aliás, o ano passado foi meu batismo de fogo no carnaval paulistano. Desfilei em três escolas entre elas, a Nenê de Vila Matilde e pela Barroca Zona Sul. Íamos todo o domingo na quadra da Barroca para cantar o samba. O samba na ponta da língua foi o que fez a Barroca sair do grupo 1 e chegar ao grupo de acesso. Já a Nenê, foi menos feliz e mais sacrificante. A fantasia era muito pesada para uma ala coreografada, além de ter um costeiro pesadíssimo, com suporte indo no pescoço. Chegamos exaustos e tristes, já temendo o pior, que se concretizou nas notas e com o rebaixamento da única escola de samba paulista que foi convidada a desfilar no carnaval do Rio de Janeiro.

Hoje estou aqui de novo em uma nova maratona carnavalesca. Exausto, pois estranhamente meu corpo custa a obedecer o que minha mente ordena às vezes, mas contente por estar no carnaval paulistano outra vez.

A lógica do árbitro ladrão

O ser humano sempre é capaz de criar lógicas a seu bel prazer. Não precisam que elas sejam verdadeiras, bastam que sejam verossímeis. Inclusive criam-se lógicas irreais, mas verossímeis para acobertar outras, reais, porém prejudiciais a dados interesses. O domínio da verdade angaria poder e isso faz com que mesmo que tal lógica exposta como verdadeira, não o seja de fato, quem a profere ganha poder se for aceita por outras pessoas. Poder, verdade e crença possuem laços íntimos que influenciam as ações humanas.

Falarei sobre a lógica do juiz de futebol ladrão. Se a arbitragem comete um erro que prejudica seu time, logo, esse árbitro favoreceu intencionalmente o adversário. Partindo dessa lógica, o juiz é ladrão. Houve um roubo, um acerto, uma corrupção, uma mala preta para que tal resultado se confirmasse à revelia de nossa vontade apaixonada e cega de torcedor de futebol. E pela cegueira histérica que a que cometemos diante da desilusão, a caixa de Pandora do ódio e da mentira se abre para tecer teorias que confirmem a incredulidade de que recusamos a aceitar. A cultura do Juiz Ladrão faz parte do mundo do futebol, mas acoberta algo mais sério. Centraliza a interpretação da regra em torno de uma, ou três pessoas (com os árbitros de linha de fundo, seriam 5, mas os resultados não tem sido tão efetivos), além de, no Brasil, a arbitragem esportiva não ser profissional. O árbitro profissional de futebol é uma das soluções que podem reduzir o erro, pois o árbitro é preparado e pago para isso. Mas está muito além da questão técnica ou simplista a solução para acabar com o “favorecimento da arbitragem”, pois sabemos que há quem se beneficie do erro.

Imagine quantos jornais deixarão de ser vendidos, quantos pontos de audiência deixarão de ser alcançados, quantos cliques não serão feitos e quanta repercussão deixará de existir sem a polêmica arbitragem das noites de quarta ou das tardes de domingo.

O mundo é movido por conflitos, e no futebol, como qualquer ação humana, não é diferente. O ponto de vista se aguça quando a dúvida, intencional ou não, se apresenta. A ausência de dúvidas elimina a subjetividade e com isso, o conflito se desfaz. Liderar uma posição de conflito é cômodo, pois é possível “inventar poder” influenciando pessoas a agirem de maneira. O homem é impelido pela ação e pela competição, e criar um ambiente de competição ou de conflito é garantir a quem criou esse ambiente poder e influência. Fica evidente que quem implanta polêmicas angaria poder, ou busca também o concentrar em um determinado ponto.

Clubes, federações e CBF, em troca de contratos de transmissão com a mídia, mantém um status quo no futebol brasileiro para que mantenha um nível de atratividade e influência, como parte de uma contemporânea política de pão e circo, porém sem o pão.

Enquanto isso, se inventa uma visão estereotipada do futebol brasileiro com heróis e vilãos. E na categoria de vilãos, está o Juiz Ladrão.

Conheci pessoalmente o árbitro tido como um dos árbitros mais envolvidos em polêmicas no futebol brasileiro. Thiago Peixoto era um jovem professor de academia, que, por acaso, descobri que também era árbitro de futebol. Um professor atencioso, muito focado no trabalho e muito boa pessoa. A última vez que ouvi falar dele, foi no último final de semana, quando, no clássico entre Náutico e Santa Cruz no Recife, se envolveu em outra polêmica e chegou a ser agredido por um jogador do Santa Cruz, que deu uma cabeçada(Fonte: https://m.futebolinterior.com.br/futebol/Brasileiro/Serie-B/2017/noticias/2017-11/arbitro-que-pegou-gancho-em-sp-leva-cabecada-no-classico-de-recife).

Aos olhos da imprensa que gosta de polemizar, Thiago é um Juiz Ladrão. Aos olhos éticos, pode ser tido como um árbitro instável e que comete erros. Erros como muitos árbitros cometem, como muitos jogadores cometem e como todos nós, seres humanos, cometemos.

O erro é algo inerente ao comportamento humano. Não tolerá-lo é uma atitude que pode fazer exatamente o oposto do que se propõe: eliminar ou anular os efeitos do erro. Thiago é uma vítima da estigma que o persegue: de que todo árbitro de futebol é ladrão.

O primeiro passo para começar a atacar a cultura do Juiz Ladrão é tratar o assunto como erro, e não como favorecimento, apesar de que o futebol faz parte de um torpe universo de casas de apostas (manipulação de resultados), lavagem de dinheiro (crime organizado investindo em futebol), fraude fiscal, evasão de divisas, sonegação fiscal (venda de atletas com ocultação de valores), corrupção (propinas e superfaturamento em obras esportivas, programas e eventos), uso político (alienação da população, favorecimento de clubes, renúncia fiscal e lobby), e muito mais em um verdadeiro jogo sujo.

Declarações como a do diretor do Palmeiras frente aos erros da arbitragem cometidos no clássico contra o Corinthians deveriam ser alvo de punição, pois inflamam a sua torcida a tensionar a rivalidade e desviar o foco dela contra as críticas contra os jogadores que falharam na partida e também foram responsáveis pela derrota do time do Palmeiras.

São os manipuladores e mafiosos do mundo da bola os verdadeiros ladrões e que fazem o futebol se tornar uma amostra de quão injusto é esse mundo. Mas para não ficar evidente, precisavam de um bode expiatório, um culpado.

Sobrou para o juiz.

Extraído de: https://kazzttor.blogspot.com.br/2017/11/a-logica-do-arbitro-ladrao.html

O branco do olho

Canso de ouvir dizer que o Brasil é um país dividido, com multifacetadas multidivisões que nos colocam a um paradoxal lema de cada um por si e Deus por todos.

Ainda temos a tola concepção de buscar diferenças nas pessoas e qualificá-las como defeitos, a ponto de ao discriminar a diferença como defeito, estaríamos nos colocando em vantagem por ser igual aos demais.

A cor, o credo, a orientação sexual, o posicionamento político, a ausência ou presença de alguma particularidade física, nos coloca em posições opostas, quando na verdade nos deveria por em um mesmo lado diverso e multifacetado que é a raça humana.

O ser humano é um ser diverso e plural, mas muitas pessoas almejam o oposto, ser algo padronizado e igual.

A diferença é uma posição cultural. É uma forma de estimular a competição em uma sociedade industrial e que perdeu na história, seu senso de humanidade. Vivemos sob o imperativo do fazer, vivemos sob uma comunicação mais publicitária que informativa. Vivemos sob um pensamento cada vez mais forte do descarte humano, quando não alinhado a seus padrões morais.

Quando deixaremos de viver nossa visão daltônica e míope de sociedade? Quando deixaremos de idealizar uma realidade e começarmos a construir uma realidade melhor, mas baseada na realidade? Quando deixaremos de enxergar o outro como estranho e sim, como simplesmente o outro?

Precisamos parar de reparar nos detalhes do outro que nos dividem e sim, nos detalhes que nos unem.

Que comecemos, então, pelo branco do olho.

Tome que essa carniça é sua

Extraído de https://kazzttor.blogspot.com.br/2017/08/tome-que-essa-carnica-e-sua.html

As manifestações neonazistas e supremacistas ocorridas na cidade de Charlottesville nos Estados Unidos trouxeram ao Brasil, além das reações de condenação a estes atos, um insano debate.

Tudo porque um procurador da república, em seu Twitter, declarou que o nazismo era um movimento de esquerda, e as reações de militantes de esquerda foram raivosas. Inclusive nas publicações de militantes, havia menções argumentos do contrário, ou seja, que o nazismo era um movimento de direita. Acabei também participando de algumas discussões, mas um post que caiu no Facebook ajudou a buscar um esclarecimento sobre o que é realmente o nazismo (ou nazi-fascismo) em relação ao posicionamento político.

Mas para isso, é necessário revisitar a história. A primeira guerra mundial terminou em um Armistício (na verdade não é um acordo de paz, e sim um acordo formal onde as partes envolvidas concordam em parar de lutar, ou seja não é o fim de uma guerra), em que a Alemanha foi uma das principais derrotadas dessa guerra. Além de perder territórios, a Alemanha teve de arcar com uma pesada dívida de guerra, comprometendo sua economia. Por ser um país industrial, boa parte da receita do país era usada para o pagamento da dívida, o país enfrentou uma crise econômica e em 1923 teve uma hiperinflação em que os preços chegaram a subir entre 40 e 50 vezes, com excessiva emissão de papel-moeda e desvalorização vertiginosa do marco alemão.

Cédula de 50 bilhões de marcos alemães de 1923

A desvalorização era tamanha que as cédulas eram usadas como brinquedo para as crianças e após um plano de reavaliação monetária, as notas chegaram a ser usadas como papel de parede em estabelecimentos comerciais e bancários alemães.

Cédulas de marco alemão coladas como papel de parede

A crise econômica e a miséria ao qual a maioria dos trabalhadores alemães foi subjugado acabou se tornando o terreno fértil para o crescimento do nazismo. Como a classe média, militares e a classe trabalhadora alemães é quem sentiam os reflexos do Tratado de Versalhes (esse é o nome do documento após o armistício, que terminou a primeira guerra mundial), foi para eles o direcionamento do discurso do movimento nazista que emergia. O Nazismo, enquanto movimento político, surgiu com o partido nacional socialista dos trabalhadores alemães, que sucedeu o partido dos trabalhadores alemães. A figura de Adolf Hitler, foi a personificação do movimento, dotado de carisma, boa escrita e oratória.

Com o discurso voltado aos trabalhadores, o movimento nazista ganhou uma forte adesão, até o auge, quando Hitler se tornou Chanceler da Alemanha em 1933. O poder executivo alemão é dotado de um chefe de estado (o presidente) e um chefe de governo (o chanceler).

Colar sua imagem aos trabalhadores tinha duas finalidades: a primeira era atrair os trabalhadores para a causa nazista e a segunda é afastar o comunismo dos trabalhadores alemães. Tanto que comunistas também eram levados aos campos de concentração nazistas, além de serem alvos de perseguição.

Sabemos muito bem, que denominações partidárias, sobretudo no Brasil, não passam de mero formalismo. Mas no caso no partido nazista, tinham o propósito publicitário, ou seja, de se tornar atraentes a um público-alvo potencial, no caso, os trabalhadores alemães. Se analisarmos denominações partidárias brasileiras, como PSDB, PMDB, DEM, PTB, PP e outros, vemos que suas práticas não tem relação nenhuma com as denominações partidárias que ostentam em suas siglas. Um dos casos recentes mais emblemáticos é o do PMB, o partido da mulher brasileira, em que a todos os primeiros deputados filiados ao partido eram homens.

Há também um outro detalhe que diferencia nazismo de socialismo. O socialismo tem um caráter internacionalista enquanto o nazismo teve um caráter nacionalista, e até mesmo xenófobo. Se compararmos bem o socialismo atual, com o nazismo e o neonazismo atual, vemos também um outro caráter que põem estes dois movimentos em lados opostos. O socialismo atual é inclusivo e defensor de minorias, enquanto o neonazismo é favorável a segregação e até mesmo da eliminação de minorias, ou seja, uma postura excludente.

Segundo a maioria dos especialistas e até do próprio Adolf Hitler à época, o nazi-fascismo surgiu como uma terceira via do ponto de vista sócio-político-econômico, o qual Hitler definiu o nazismo como resultado de de um sincretismo político. Ou seja, nazismo não é, originalmente nem de direita ou de esquerda, mas podemos dizer que é um subproduto político de uma conjuntura política bastante conturbada, com a primeira guerra mundial, a revolução russa de 1917 e agravado pela crise de 1929. Isto gerou governos totalitários, como o de Mussolini na Itália, Salazar em Portugal, Franco na Espanha e outros. No Brasil, o Estado novo de Getúlio Vargas também recebeu influência do nazi-fascismo, com um estado totalitário, controle da imprensa e propaganda, nacionalismo e repressão política.

Hoje, muitos dos conceitos nazi-fascistas são disseminados em grupos de extrema direita, como o antissemitismo, homofobia, racismo, militarismo, xenofobia e disseminação de ódio.

As manifestações supremacistas em Charlottesville geraram protestos contrários por grupos antirracistas e houve confrontos. Mas o fato mais emblemático, foi o de um supremacista que atropelou um grupo de manifestantes antirracistas matando uma militante. A opinião pública mundial condenou os atos neonazistas e isto trouxe comoção internacional e reflexos na opinião pública no Brasil e no mundo. Foi um profundo revés à extrema-direita, representada pela vitória de Trump nos Estados Unidos, além outros movimentos de extrema-direita que emergem na Europa, como na França, Holanda, Itália, Hungria e Bélgica.

A direita brasileira reascendida após o impeachment de Dilma Rousseff, sobretudo a extrema-direita, via uma oportunidade de angariar mais poder, com o forte descontentamento da população brasileira com a política devido aos escândalos de corrupção, publicitariamente divulgados pela grande mídia com avidez e parcialidade. O que aconteceu em Charlottesville pode trazer consequências negativas às campanhas de direita e extrema direita, sobretudo os conservadores do PSC e a figura de Jair Bolsonaro, agora no nanico PEN. Os reflexos desse episódio podem acender um alerta, que não havia sido acionado na década de 1920, tidos como os anos loucos. O extremismo, xenofobia, racismo e homofobia, nacionalismo e fundamentalismo religioso são sintomas de uma sociedade doente e desigual. Ainda que haja alternativas para solução de uma sociedade global doente, todas essas alternativas passam pela política, pois foi a política que fez emergir ao poder lideranças que carregavam consigo lemas de rancor e ódio.

Também nos mostra um nível de polarização política ao pior estilo Fla-Flu, onde não são debatidos os assuntos de forma leal, e sim, como uma disputa infantil por território político. E para essa disputa, são usadas como armas boatos, manipulações dos fatos, meias-verdades, omissões de personagens ou destaque exagerado a outros, além de fatos propositalmente colocados ao mesmo tempo, para que um acoberte ou anule o outro. É o que podemos dizer, que vivemos na era da pós-verdade, onde a verdade é pouco importante, mas os fatos verídicos ou não, são armas para enfraquecer opositores.

Assim, vemos o neonazismo que perdeu a modéstia exalando o cheiro de carniça, a qual direita e esquerda se acusam mutuamente de ser o dono dela.


Referências

WIKIPEDIA. Hyperinflation in the Weimar Republic. (em inglês) Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Hyperinflation_in_the_Weimar_Republic Acesso em 19/08/2017

WIKIPÉDIA. Hiperinflação. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hiperinfla%C3%A7%C3%A3o Acesso em 19/08/2017.

WIKIPÉDIA. Partido da Mulher Brasileira. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_da_Mulher_Brasileira Acesso em 19/08/2017

COSTA, Camila. O nazismo era um movimento de esquerda ou de direita? Disponível no site BBC Brasil: http://www.bbc.com/portuguese/salasocial-39809236 Acesso em 19/08/2017

WIKIPÉDIA. Estado Novo (Brasil). Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Estado_Novo_(Brasil) Acesso em 19/08/2017

WIKIPÉDIA. Segunda Guerra Mundial. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Segunda_Guerra_Mundial Acesso em 19/08/2017

WIKIPÉDIA. Primeira Guerra Mundial. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Primeira_Guerra_Mundial Acesso em 19/08/2017

WIKIPÉDIA. Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_Nacional_Socialista_dos_Trabalhadores_Alem%C3%A3es Acesso em 19/08/2017

WIKIPÉDIA. Armistício. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Armist%C3%ADcio Acesso em 19/08/2017

Hannah encarnado

André Arruda tem uma confissão a fazer que é estarrecedora.

Sabe aqueles dias em que é preciso um desabafo e se vê obrigado a calar-se pois sua revelação é demasiadamente perturbadora e comprometedora? Era o dilema de Hannah, personagem do badalado seriado da Netflix, Os treze porquês. Ela presenciou um estupro e foi vítima do mesmo agressor do estupro que testemunhou. Ser testemunha e vítima de uma violência é duplamente atormentador, principalmente quando o agressor está em nosso meio, e não pode denunciar por medo de represálias ou danos à sua reputação.

Senti essa experiência na carne. Encarnei Hannah​ por uma noite, testemunhando e sofrendo uma agressão em uma mesma noite. Algo que posso confessar apenas aqui. Pois não consigo contar a ninguém. 

Após uma reunião, um “amigo” me convidou para ir em sua casa. Nos embebedamos, e ainda bebi uma cachaça batizada com maconha. Por duas vezes, ele mandou que eu o masturbasse. Nas duas vezes eu rejeitei sua oferta, sendo que nesta segunda vez, eu fui embora. Mas antes ocorreu a parte mais assustadora para mim. Esse “amigo” teve um surto psicótico. Gritava, xingava, e pensei que fosse me agredir. Ele teve uma alucinação: pensou que tinha mais um homem alí e disse que iria mata-lo.

Contou que fez sexo com uma travesti. Disse que a agrediu enquanto fazia sexo com ela, pois não sabia que ela era na verdade travesti.

Eu sei porque aconteceu aquilo, de ele pedir que o masturbasse. Todos sabem que sou gay, e o preconceito que se põe sobre a homossexualidade destrói aquele que é gay. A ideia do sexo fácil, da promiscuidade, do ser afeminado, faz com que as pessoas olhem para você intimamente da pior forma possível, e inclusive, passe a querer agir com você com as intenções mais escusas. Te vêem como um lixo, um pedaço de carne de quinta categoria que pode ser comido, cuspido e destruído a bel prazer de pessoas que praticam o mal hipocritamente ou mesmo descaradamente. 

Senti a Hannah​ na banheira cortando os pulsos. Senti a alma morrer lentamente. Pois a morte suicida e lenta é a agonia mais sofrida que um homem pode sofrer, pois é um rito esquizofrênico de contemplação do próprio sofrimento que viveu por tanto tempo, até cruzar as veias dos pulsos com uma gilete.

Hoje acordei atordoado com a lembrança do desastre ao qual fui acometido. Neste momento estou com sintomas que podem ser qualificados como estresse pós traumático. Seria como se tivesse sofrido um acidente ou um assalto. Trabalhei à pulso. Depois do trabalho, resolvi fazer caminhada. Enquanto andava, escrevi isso.

Quando acontece algo com você, tem-se duas alternativas: enfrentar ou fugir. Pode parecer simples demais, mas qualquer coisa que faça ou é uma forma de enfrentamento ou de fuga. Na maioria das vezes, mesmo que sutilmente, eu fugi. Mas há momentos em que a melhor alternativa é enfrentar. E minha arma é a verdade e a palavra. Minha verdade é meu âmago, e quando se torna base de meu caráter, torna meu espírito indestrutível. Vi muitos amigos gays se inspirarem na música indestrutível, da Pablo Vittar. Ainda não ouvi, e vou ouvir para entender. Boa parte dos suicídios estão entre jovens gays. Mas o suicídio é precedido pelo sentimento de solidão, fracasso e indefesa e isto ocorre não importa o quão popular e amado pareça ser, pois vivemos de avatares, às vezes não parecemos o que realmente somos. E essa é a pior parte, pois vivemos aprisionados a nós mesmos. É a mais angustiante das clausuras. 

Mas, ao contrário da Hannah, pretendo continuar vivendo. Precisamos romper o silêncio e este rompirá com nossas clausuras, precisamos fazer com que o mundo nos ouça e nos fortaleça em vez de nos enfraquecer. É enfrentando o mundo, que ficamos fortes para nele viver.

Os imperativos

André Arruda ensaia uma análise sobre o poder de influenciar pessoas, com os imperativos do pensar e do fazer.

Pensando aqui com meus botões, vejo que estamos em um momento em que vivemos um embate entre imprerativos. Não que haja exclusividade de imperativos de um lado ou outro do embate político, mas me peguei enumerando diferenças entre duas formas de imperativos que vemos nos debates, sejam políticos ou de qualquer outra questão polêmica: o imperativo do fazer e o imperativo do pensar.

O imperativos do fazer é uma ordem de execução. Não questione, apenas faça. Não admite nada além do que a obediência e a confiança a quem impõe ou comunica a ordem, mesmo não tendo ciência das suas razões ou consequências. Já o imperativo do pensar tenta mover o homem por meio da argumentação, mostrando as opções, oportunidades  e ameaças de uma determinada ação, de forma que aquele que recebe os fatos tire suas próprias conclusões e assim, aja.

Tanto um quanto outro imperativo tem seus vícios e virtudes. E coloca um líder sobre um dilema estratégico: qual imperativo é mais qualificado para a ocasião. 

O imperativo do fazer é objetivo, já o do pensar é subjetivo. O do fazer é regra, o do pensar, argumento. O do fazer é explícito, já o outro, implícito. Um informa, outro, forma. Um impõe um caminho, outro mostra os caminhos e pode orientá-los. Um é detalhe, o outro, horizonte. Um exige submissão, outro entendimento. Um é comício, outro é debate. Um é superficial, outro profundo. 

Claro que essas divagações podem não traduzir a realidade do imperativo do fazer, como o do pensar, pois a ação e o entendimento não são operações padronizadas. Pois o imperativo é uma forma de comunicação para impor uma ação, e depende dos elementos da comunicação para ser efetivos. 

Assim, pode haver momentos em que o imperativo do fazer usa recursos do imperativo do pensar, e vice-versa. Mas sempre o objetivo principal (fazer ou pensar) se torna evidente, por mais que se tente disfarçar. 

Um imperativo do pensar utiliza elementos do imperativo do fazer, quando se deseja uma reação de pensamento daquele ao qual se ordena, a princípio, chamar a atenção deste para refletir. O imperativo do fazer, por sua vez, usa de elementos do imperativo do pensar para reforçar uma ordem, ou torná-la crível para o incauto que não foi introduzido àquela ordem.

Seja pelo pensar ou pelo agir, somente a ordem se torna efetiva, quando acatada. Para combater o imperativo do pensar, a estratégia é discordar, principalmente se houver argumentos que embasem a discordância. Já para combater o imperativo do fazer, a estratégia é questionar a ordem principalmente com argumentos de relação causa e consequência, que enfraquecem o vínculo de confiança entre o ordenante e o ordenado. 

Entender que vivemos em um universo de influência, onde os imperativos são suas ferramentas, agrega em nós a expressão do senso crítico. O poder de influenciar pessoas passa pela correta dosagem em usar o imperativo do pensar e do agir de forma adequada, para que haja um vínculo de confiança com as pessoas a serem influenciadas. 

Brasil: o país da trapaça

André Arruda expõe o dano de um país onde a regra social suprema é a trapaça. Também aborda o mito de herói e vilão no Brasil.

O Brasil é o país da trapaça! Está provado isso! A cada novo escândalo, vemos como a trapaça que presenciamos exposta aniquila a todos nós em um clima permanente de desconfiança, nos deixando sitiados.

O Brasil tem uma carta Magna, mas a lei que todos obedecem não está escrita nela: é a Lei de Gerson, onde é norma suprema levar vantagem em tudo. O desejo do sucesso a qualquer custo pode nos inspirar a viver de improviso, mas a tentação maior recai sobre a trapaça, que é o uso da inteligência para burlar regras, enganar pessoas e organizações, obter vantagem por meios escusos. O jeitinho brasileiro é uma faca de dois gumes, onde o lado em que o manipulador segura é embebido em entorpecente, para que o manipulador não perceba que está se prejudicando ao trazer dano a outrem. Essa onda de desrespeito generalizada que nosso país se inoculou tornou-se uma pandemia moral que pode levar nosso país ao abismo. 

O escândalo das carnes nos mostra a ganância levada às últimas consequências. Fraudar o alimento a ser vendido é quase como uma tentativa de homicídio em nome do lucro. Maximizar o escândalo com todo o enredo generalizado por uma instituição que deveria ser responsável pelo cumprimento das leis, como a polícia federal, é uma tentativa de suicídio da soberania nacional, com graves consequências a milhões de inocentes em meio a um clube de culpados. A generalização é um álibi. A cada vez que surge um escândalo, coloca-se a marca da organização como escudo: o torcedor da torcida organizada X, o político do partido Y (desde que esse partido não seja aliado de seus interesses), o funcionário da empresa Z, o servidor público, o grevista, o manifestante, o policial, o gay, o travesti, o macumbeiro… O Brasil tem o hábito de personificar os heróis e coletivizar os vilões, mesmo sabendo que o grupo ao qual pertence não tem relação nenhuma com sua má índole.

A forma como agem os malfeitores desse país vai de encontro com a maneira com com julgam as malvadezas. Assim passam incólumes e anônimos, e isso os protege. Somente se personifica um vilão quando conveniente que seja destruído, mesmo que não seja de fato vilão. O vilão personificado é o herói potencial que pode abalar um poder estabelecido, é quem pode arregimentar forças para derrubar o status quo. Só ver os exemplos de Zumbi, Tiradentes, Lamarca, Lula e outros: são líderes populares, e no momento histórico em que estiveram, foram os vilões personificados.

A visão coletivizada do vilão, exceto quando personificar o vilão é conveniente, além de proteger o autor do mal, o banaliza. A banalização do mal é o prelúdio da barbárie, pois provoca nas pessoas a inação, o conformismo, ou a hipócrita indignação sem uma ação corretiva, ou reação provida de má-fé, vaidade ou prepotência.

É demagogia exigir o fim da corrupção, quando corrompemos, ou nos deixamos corromper em situações cotidianas. Mesmo sem querer, usurpamos regras e somos corrompidos pela mídia e pela pós-verdade. Cremos naquilo que nos convém, debatemos com o diferente para derrota-lo, não para compreendê-lo. 

Vemos a honestidade como exceção, não como regra. O caso do jogador de futebol que corrigiu o árbitro, após aplicar cartão amarelo, foi cultuado pela mídia, mas no meio futebolístico gerou controvérsia, onde o próprio colega de time, sutilmente o criticou ao dizer que preferia ver as mães do adversário tristes do que ver tristes as suas próprias. Em um ambiente exageradamente competitivo, a vantagem deve ser obtida, mesmo que indevidamente. Isso também justifica empresas serem alvo de reclamações dos consumidores, por contratações indevidas, sem no entanto mudar de atitude, para coibir tais atos. O objetivo é bater as metas, e eventuais reclamações são resolvidas de uma forma ou de outra. 

A cultura da trapaça só pode ser derrotada no Brasil, com educação e exemplo. O fim da impunidade é um note a ser alcançado para que o Brasil possa se acostumar a aprender a ser honesto.