Os imperativos

André Arruda ensaia uma análise sobre o poder de influenciar pessoas, com os imperativos do pensar e do fazer.

Pensando aqui com meus botões, vejo que estamos em um momento em que vivemos um embate entre imprerativos. Não que haja exclusividade de imperativos de um lado ou outro do embate político, mas me peguei enumerando diferenças entre duas formas de imperativos que vemos nos debates, sejam políticos ou de qualquer outra questão polêmica: o imperativo do fazer e o imperativo do pensar.

O imperativos do fazer é uma ordem de execução. Não questione, apenas faça. Não admite nada além do que a obediência e a confiança a quem impõe ou comunica a ordem, mesmo não tendo ciência das suas razões ou consequências. Já o imperativo do pensar tenta mover o homem por meio da argumentação, mostrando as opções, oportunidades  e ameaças de uma determinada ação, de forma que aquele que recebe os fatos tire suas próprias conclusões e assim, aja.

Tanto um quanto outro imperativo tem seus vícios e virtudes. E coloca um líder sobre um dilema estratégico: qual imperativo é mais qualificado para a ocasião. 

O imperativo do fazer é objetivo, já o do pensar é subjetivo. O do fazer é regra, o do pensar, argumento. O do fazer é explícito, já o outro, implícito. Um informa, outro, forma. Um impõe um caminho, outro mostra os caminhos e pode orientá-los. Um é detalhe, o outro, horizonte. Um exige submissão, outro entendimento. Um é comício, outro é debate. Um é superficial, outro profundo. 

Claro que essas divagações podem não traduzir a realidade do imperativo do fazer, como o do pensar, pois a ação e o entendimento não são operações padronizadas. Pois o imperativo é uma forma de comunicação para impor uma ação, e depende dos elementos da comunicação para ser efetivos. 

Assim, pode haver momentos em que o imperativo do fazer usa recursos do imperativo do pensar, e vice-versa. Mas sempre o objetivo principal (fazer ou pensar) se torna evidente, por mais que se tente disfarçar. 

Um imperativo do pensar utiliza elementos do imperativo do fazer, quando se deseja uma reação de pensamento daquele ao qual se ordena, a princípio, chamar a atenção deste para refletir. O imperativo do fazer, por sua vez, usa de elementos do imperativo do pensar para reforçar uma ordem, ou torná-la crível para o incauto que não foi introduzido àquela ordem.

Seja pelo pensar ou pelo agir, somente a ordem se torna efetiva, quando acatada. Para combater o imperativo do pensar, a estratégia é discordar, principalmente se houver argumentos que embasem a discordância. Já para combater o imperativo do fazer, a estratégia é questionar a ordem principalmente com argumentos de relação causa e consequência, que enfraquecem o vínculo de confiança entre o ordenante e o ordenado. 

Entender que vivemos em um universo de influência, onde os imperativos são suas ferramentas, agrega em nós a expressão do senso crítico. O poder de influenciar pessoas passa pela correta dosagem em usar o imperativo do pensar e do agir de forma adequada, para que haja um vínculo de confiança com as pessoas a serem influenciadas. 

Brasil: o país da trapaça

André Arruda expõe o dano de um país onde a regra social suprema é a trapaça. Também aborda o mito de herói e vilão no Brasil.

O Brasil é o país da trapaça! Está provado isso! A cada novo escândalo, vemos como a trapaça que presenciamos exposta aniquila a todos nós em um clima permanente de desconfiança, nos deixando sitiados.

O Brasil tem uma carta Magna, mas a lei que todos obedecem não está escrita nela: é a Lei de Gerson, onde é norma suprema levar vantagem em tudo. O desejo do sucesso a qualquer custo pode nos inspirar a viver de improviso, mas a tentação maior recai sobre a trapaça, que é o uso da inteligência para burlar regras, enganar pessoas e organizações, obter vantagem por meios escusos. O jeitinho brasileiro é uma faca de dois gumes, onde o lado em que o manipulador segura é embebido em entorpecente, para que o manipulador não perceba que está se prejudicando ao trazer dano a outrem. Essa onda de desrespeito generalizada que nosso país se inoculou tornou-se uma pandemia moral que pode levar nosso país ao abismo. 

O escândalo das carnes nos mostra a ganância levada às últimas consequências. Fraudar o alimento a ser vendido é quase como uma tentativa de homicídio em nome do lucro. Maximizar o escândalo com todo o enredo generalizado por uma instituição que deveria ser responsável pelo cumprimento das leis, como a polícia federal, é uma tentativa de suicídio da soberania nacional, com graves consequências a milhões de inocentes em meio a um clube de culpados. A generalização é um álibi. A cada vez que surge um escândalo, coloca-se a marca da organização como escudo: o torcedor da torcida organizada X, o político do partido Y (desde que esse partido não seja aliado de seus interesses), o funcionário da empresa Z, o servidor público, o grevista, o manifestante, o policial, o gay, o travesti, o macumbeiro… O Brasil tem o hábito de personificar os heróis e coletivizar os vilões, mesmo sabendo que o grupo ao qual pertence não tem relação nenhuma com sua má índole.

A forma como agem os malfeitores desse país vai de encontro com a maneira com com julgam as malvadezas. Assim passam incólumes e anônimos, e isso os protege. Somente se personifica um vilão quando conveniente que seja destruído, mesmo que não seja de fato vilão. O vilão personificado é o herói potencial que pode abalar um poder estabelecido, é quem pode arregimentar forças para derrubar o status quo. Só ver os exemplos de Zumbi, Tiradentes, Lamarca, Lula e outros: são líderes populares, e no momento histórico em que estiveram, foram os vilões personificados.

A visão coletivizada do vilão, exceto quando personificar o vilão é conveniente, além de proteger o autor do mal, o banaliza. A banalização do mal é o prelúdio da barbárie, pois provoca nas pessoas a inação, o conformismo, ou a hipócrita indignação sem uma ação corretiva, ou reação provida de má-fé, vaidade ou prepotência.

É demagogia exigir o fim da corrupção, quando corrompemos, ou nos deixamos corromper em situações cotidianas. Mesmo sem querer, usurpamos regras e somos corrompidos pela mídia e pela pós-verdade. Cremos naquilo que nos convém, debatemos com o diferente para derrota-lo, não para compreendê-lo. 

Vemos a honestidade como exceção, não como regra. O caso do jogador de futebol que corrigiu o árbitro, após aplicar cartão amarelo, foi cultuado pela mídia, mas no meio futebolístico gerou controvérsia, onde o próprio colega de time, sutilmente o criticou ao dizer que preferia ver as mães do adversário tristes do que ver tristes as suas próprias. Em um ambiente exageradamente competitivo, a vantagem deve ser obtida, mesmo que indevidamente. Isso também justifica empresas serem alvo de reclamações dos consumidores, por contratações indevidas, sem no entanto mudar de atitude, para coibir tais atos. O objetivo é bater as metas, e eventuais reclamações são resolvidas de uma forma ou de outra. 

A cultura da trapaça só pode ser derrotada no Brasil, com educação e exemplo. O fim da impunidade é um note a ser alcançado para que o Brasil possa se acostumar a aprender a ser honesto. 

Enquanto não entendermos que somos iguais, teremos que mostrar por que não somos diferentes

André Arruda comenta a questão da luta pela convenção social atrasada e injusta que vivemos, que subjuga aqueles que não pertencem a esse padrão a uma situação marginal.

Ontem foi o dia internacional da mulher. Foi um dia marcado fortemente por manifestações em todo mundo pela igualdade de gênero, luta mais que centenária, mas que ainda não atingiu plenamente seus objetivos. Eu não escrevi nada para a ocasião, até mesmo para não parecer oportunista. Pois a luta aqui é para que possamos levar a crer a todos que defendem o senso comum de normas de superioridade, de que não existe nenhum ser humano mais superior que outro, por condição de gênero e identidade de gênero, cor, orientação sexual, crença, nacionalidade, ausência ou presença de alguma particularidade, ou qualquer outra característica que diferencie uma pessoa de outra. Diferenças são propostas como vantagens ou desvantagens competitivas por mera convenção leviana. Leviandade esta, convencionada por grupos que se entitulam dominantes, e que tecem essas convenções com o único intuito de servir a seus interesses dominantes. Não obstante que aqueles que ousam subverter a essas convenções, de uma forma ou de outra, acabam perseguidos.

Os dias que celebramos todos os anos a luta pela igualdade, como o dia da mulher, do orgulho LGBT, da consciência negra, e outros, não servem apenas como uma homenagem, e sim como um símbolo de luta contra a segregação ditada por essas convenções. Mas por muitas vezes, vemos de forma velada e até mesmo escancarada, o escárnio e a hipocrisia que algumas pessoas e grupos levam a questão da igualdade no grupo social. As infelizes declarações do presidente Michel Temer, mostram uma visão patriarcal e machista da mulher pelo homem, na qual, sua função é apenas acessória, de ajudante de marido, de coadjuvante da sociedade. Também vemos empresas que falam abertamente em apoiar a mulher em cargos de gestão, mas se não definir metas de participação feminina em cargos de alta gestão e promover a abertura para a mulher na gestão empresarial, esse apoio não passa de um discurso demagogo.

Certa vez, vi na televisão uma apresentação de uma médica cadeirante, sobre a questão da acessibilidade. Ela disse que grupos de pessoas com deficiência decidiram que, para que a assesibilidade fosse de fato efetiva, era necessário a participação das próprias pessoas com deficiência na elaboração das soluções e decisões. Assim surgiu um termo que pode ser aplicado a qualquer grupo que almeja a igualdade: “nada se decide sobre nós, sem nós”. E isso é perfeitamente coeso, pois o ponto de vista do espectador, nem sempre é o mais adequado para se tomar uma decisão. Não se pode estabelecer uma política de combate ao racismo sem os afrodescendentes, ou uma política de combate a homofobia sem a presença de LGBT’s.

E é aí que se encontra o cerne da desigualdade. Está no ego humano a defesa de seus próprios interesses. E aqueles que estão no comando de governos e corporações são aqueles que, em sua maioria, defendem as convenções que não são igualitárias. Tanto é que vemos claramente as distorções no mercado de trabalho, no tocante ao que essas convenções chamam de “minorias”, pois dentro de um grupo fechado e definido por estas convenções, estes grupos são de fato minoria. Porém, ao ampliarmos o foco para a população inteira, vemos que não se trata de uma minoria e sim de um grande contingente de pessoas marginalizadas por uma convenção social atrasada e injusta.

Esse padrão social convencional só irá se colapsar se as forças que as combatem entenderem que unidos e solidários, poderão vencê-los, e com isto instituir uma nova forma de relação social e humana, baseado não nas diferenças e sim nas capacidades de cada um. A luta do trabalhador, da mulher, do negro, do LGBT, das pessoas de crença de matriz africana e de tantas outras que são marginalizadas de alguma forma pela sociedade da convenção social, é uma luta que pode vista como conciliadora, inclusiva e poderosa, se articulada.

Enquanto não entendermos que somos iguais, teremos que mostrar por que não somos diferentes.

Sobrevivemos a 2016

André Arruda sintetiza o ano de 2016 neste artigo.

Hoje é primeiro de janeiro de 2017. A sensação que se tem é mais de alívio do que de alegria, afinal, 2016 foi um ano marcante, mas com muitas questões que causam mais pesar do que regozijo, mais tristeza que alegria. Foi um ano acinzentado, onde triunfou a emoção cega e a razão míope, onde perdemos grandes ídolos na música, no esporte e atentados e tragédias nos tiraram, pelo menos por um breve momento, nossa fé em nós mesmos.

2016 foi cinzento. Foi as cinzas de uma democracia jovem, foi as cinzas de jovens atletas, foi as cinzas nos rostos de crianças refugiadas manchadas pelo terror e pela guerra. Foi o ano da intolerância, do fla-flu político, dos escândalos e das negociatas. Foi um ano cinzento para muitos brasileiros que perderam o emprego, a garantia de futuro e correm o risco de ter seu presente ainda mais sofrido. Foi o ano em que o extremismo deu as caras, que perdeu a modéstia e agrediu em plena noite de natal até a morte um ambulante que defendeu homossexuais, e que em plena escola, que deveria ser o templo do saber, se viu a morte de um jovem, filho adotivo de um casal homoafetivo. Viu-se um povo manipulado a dizer não a uma presidente, sim a uma ditadura, não a um bloco e sim a um aventureiro para governar a maior potência do mundo. Viu-se cidades brasileiras falidas e estados a beira de um colapso econômico. Viu-se cidade luz e cidades chinesas sob poeira de poluição. Viu-se desmatamento e queimadas, viu-se animais cada vez mais próximos da extinção.

2016 não foi de todo triste, até nos momentos de tristes de viu algo sublime e humano, como o que o povo colombiano fez pelas vítimas do voo da Chapecoense. Viu-se uma olimpíada e paraolimpíada na América do Sul pela primeira vez, viu-se pessoas ajudando mutuamente, lutando conta aumentos abusivos de salários de deputados e vereadores, por mudanças na ética e na política, viu-se escolas ocupadas por uma rapaziada que não corre da raia a troco de nada, que segue em frente e segura o rojão, a bomba e toda a truculência dos governos insanos do Brasil.

Este ano de 2016 foi uma prova de fogo, um teste de apocalipse. Diante de todo esse caos e desordem, o desânimo, a loucura e até a morte nos faríamos sucumbir. Mas a grande maioria de nós resistiu. E está aqui pra contar a história.

Sobrevivemos a 2016, mas o tempo não para. Ele urge. 2017 surge como o ponto chave para a mudança ou a escalada do retrocesso que se iniciou com mais vigor no ano que se findou agora. Será um desafio e tanto para aqueles que almejam dias mais prósperos, de união e de paz.

O próspero 2017 só existirá de fato, quando os sobreviventes de 2016 reconstruírem a forma de pensar humana e que esta forma de pensar não seja voltada à ganância, e sim ao próximo.

Votos renovados para um ano vindouro não se resume apenas ao desejo, pois este desejo não pode sucumbir, frustrado pela inação em realiza-lo.

Sobrevivemos a 2016. Vamos fazer com que 2017 não morra em nossos braços.

A pior ditadura é a falsa justiça

André Arruda comenta sobre foto publicada em redes sociais que retrata o protesto na Alemanha contra o juiz Sérgio Moro, durante palestra. No protesto, um cartaz dizia que a pior ditadura é a falsa justiça.

​Vejam essa foto publicada pela Mídia Ninja em sua conta no Instagram: https://www.instagram.com/p/BN0ReMxBF8p/

Era necessário compartilhar isso. O único protesto em uma palestra proferida pelo juiz Sérgio Moro na Alemanha é uma verdade que precisa ser dita como um murro na cara de quem ainda o defende. 

A pior ditadura é a falsa justiça.

A Alemanha conheceu muito bem como a falsa justiça funcionava no estado de exceção nazista, em que uma pessoa era condenada a morte por ser judia, comunista ou homossexual, ou pertencer a qualquer outra minoria que não era alinhada com a “raça ariana”. 

O mais curioso são os repetitivos e ignóbeis comentários desta foto publicada pelo Instagram pela Mídia Ninja, daqueles que ainda o defendem. O primeiro argumento é comparar o termo ditadura com as ditaduras comunistas. Ora, parece que essas pessoas nasceram ontem: faz 31 anos que nosso país viveu uma ditadura militar que também atuou como um estado de exceção com perseguições, mortes, torturas e desaparecimentos de pessoas que se opunham a seus propósitos. Depois que, culpa-se apenas ao “comunismo” a razão de haver ditaduras comunistas, o que mostra o nível raso de argumento destes, pois existem também repúblicas democráticas com princípios socialistas. E quanto as ditaduras, de fato foram estados de exceção, mas não por culpa da filosofia político-econômica, mas por uma questão de circunstâncias, oriundas de um profundo antagonismo. 

Façamos uma reflexão, trace as ligações de Moro com políticos e verá diversas conexões com um certo partido político. Também vemos o tratamento que ele deu ao caso Banestado, que foi, em termos de desvio de dinheiro público e enriquecimento ilícito ainda mais escandaloso e de maiores valores que a Lava Jato.

Concluo com os versos de Cazuza:

Meus heróis morreram de overdose

Meus inimigos estão no poder

Ideologia, eu quero uma pra viver

Abre-alas

André Arruda rememora momentos em uma reflexão sobre o ano de 2016 que caminha para a reta final.

Hoje é primeiro de setembro e me dei por conta que falta apenas um quadrimestre para o término de 2016. Mas ao puxar as reminiscências conexões improváveis surgiram.

Hoje, o Corinthians comemora 106 anos. E ao lembrar do Corinthians, lembrei de Doutor Sócrates, que comemorava os gols com o braço direito erguido para o céu. Sócrates era um dos líderes da Democracia Corinthiana, e foi uma das personalidades que apoiaram a campanha pelas diretas em 1984.

Ao lembrar disso, também lembrei do impeachment que foi confirmado ontem. Lembrei que, assim como em 1984, a vontade dos parlamentares prevaleceu contra a vontade de milhões de eleitores. E que, assim como em 1989, a mídia manipulou escancaradamente a opinião pública para que o impeachment fosse aceito.

Ao lembrar de Sócrates também lembrei dos Panteras Negras, com o gesto dos punhos cerrados e braços erguidos nas olimpíadas. O que me fez rememorar os jogos olímpicos do Rio de Janeiro, onde muitas barreiras foram rompidas, sendo uma olimpíada de muita diversidade. 

Muitas lutas a travar, pela democracia, pela justiça, pela diversidade, pelo respeito. Falta pouco tempo para terminar o ano, e fica a questão de que legado devemos começar a deixar para o futuro. 

Vai com medo, mesmo!

André Arruda rememora momentos vividos em atuações anteriores como voluntário.

Hoje tenho o primeiro passo para o início de uma jornada. Estou a caminho do Rio do Janeiro pois em breve estarei atuando como voluntário nos Jogos Olímpicos.

Já é o terceiro grande evento no país que atuo voluntariando. Já participei da Copa das Confederações em 2013 e da Copa do Mundo, no ano seguinte. E ao rememorar essas experiências fui tomado de súbita emoção. Isto pois lembrei de alguns momentos em que lágrimas caíram de meus olhos.

Era dia 20 de junho de 2013. Uma onda de protestos varria o país no meio da Copa das Confederações. Naquele dia estava de folga, e mesmo sendo voluntário em um evento FIFA, eu fui a um dos protestos. Fui pois eu entendi que mais do que a insatisfação com a copa, havia uma enorme insatisfação com o poder público do Brasil, que exige muito (impostos, leis, burocracia) e oferecia pouco (serviços públicos de qualidade e garantias individuais). Ao chegar no centro do Rio, vendo aquela multidão de jovens que pacificamente protestavam, entoavam palavras de ordem e cantavam, eu me emocionei. Ao cantar o hino nacional junto com aquela multidão, lágrimas caíram de meu rosto. Me sentia parte daquilo. Me sentia protagonista da história do Brasil naquele momento.

Naquele dia 12 de junho de 2014 foi diferente. A emoção era outra. Era a de um amante do esporte bretão. Eu até então não estava escalado para atuar na abertura da Copa. Na última hora fui escalado para atuar. Foi um dia inteiro de trabalho e no final, consegui uma permissão para ir à tribuna de imprensa, onde tive experiência de ver pela primeira vez (mesmo que seja por alguns minutos) uma partida da seleção brasileira no estádio. E pude ver o gol do Oscar, do mesmo ponto de vista de jornalistas e torcedores presentes. Ao terminar o jogo, a sensação do dever cumprido. A abertura da Copa foi um espetáculo, e ajudei a fazer isso possível, juntamente com todos os outros voluntários e profissionais. Saí da tribuna com os olhos marejados. Também me senti parte daquilo.

Identidade e pertencimento é algo que nos dignifica, quando os percebemos. Talvez seja por isso que tanto se coloca nas pessoas uma cultura individualista. Pois uma cultura coletivista é perigosa para quem oprime e quem almeja privilégios. Por isso a enganação da força do herói solitário. Mas como diria a música de Baiano e Os Novos Caetanos (Parceria de Chico Anysio e Arnaud Rodrigues), o herói é o caba que não teve tempo de correr.

Talvez seja essa a lição que tiro dessas experiências. E isso se traduz na reação das pessoas ao dizer que vou aos jogos olímpicos, voluntariar. Elas me perguntam se eu não tenho medo de ir. Eu respondo com uma frase que li em algum lugar que diz:

Se tiver que ir, vá! Mas se estiver com medo, vá com medo mesmo!

Já vivi algumas experiências que me assustaram, que me deixaram com medo, mas entendo que o medo, não deve te travar, você tem que enfrentar. É um desafio. Apesar de outros medos que tenho, eu levo adiante a vida com eles, enganando-os ou buscando alternativas. Mas é preciso encarar o medo de frente, em alguns momentos. É o seu karma, faz parte do seu desafio vital.

Mas, pensando bem, ao rememorar minhas lembranças, minha resposta seria outra. Ao me perguntarem se eu não estaria com medo eu responderia:

Eu não estarei sozinho.

Nada tão abrangente, tão singular e tão controverso.