Eu não sou máquina

Cansei de ver meu suor gerado em vão. Cansei de ver meus companheiros de trabalho agonizando, doentes, em um silencioso sofrimento. Vejo neles o cansaço, o desânimo, o tabagismo, o alcoolismo, a obesidade, a baixa auto-estima, o mal humor, o tédio, a depressão, o desatino, o pessimismo, o erro. Vejo neles não a doença, mas o sintoma coletivo de um sistema doente, que precisa de pessoas sendo oprimidamente vencidas para que hajam vencedores sem mérito algum.
Ainda está para nascer um líder que não seja borra-botas, garoto de recado, que busque conhecer seus leais seguidores a ponto de defendê-los contra seus pares e superiores, que trabalhe sua liderança com honra e humildade, pois se considera um simples representante de sua equipe.
Cansei de ver os decanos retrógrados, que a todo custo tentam manter suas teorias estritas em jornais amarelados, desgastados com o tempo, impondo velhas soluções a novos problemas. Estes decanos sonharam um dia com a modernidade e com o acesso à informação em tempo real, e hoje tendo estes recursos à mão jogam fora, como coisas superfluas, achando o necessário inútil e o inútil necessário.
Chega de velhos teoremas! Chega de nos reduzirmos a peças descartáveis e substituíveis, comparados a máquinas sem valor! Chega de nos impor uma carga sobre-humana, como se a perfeição deixasse de ser uma virtude, mas uma obrigação! Chega de só funcionar e basta! Chega de colocar a responsabilidade nas costas alheias, quando esta é de fato sua! Chega de narcisismo gerencial! Chega de palavras vazias, meio-termos, e inação! Chega de punir inocentes para dar exemplo! Chega de proteger a mal-caratice por conveniência! Chega de injustiça, do conformismo, do individualismo, do materialismo e da desumanidade! Chega de omissão e conivência! Precisamos dar um basta a tudo isso, por questão de sobrevivência!
Ninguém é uma ilha! Ninguém se faz sozinho, nem merece ter toda culpa ou mérito sozinho, da mesma forma que não devemos fugir do ônus de pertencer a un grupo social. Se um grupo onde estou venceu, eu venci também, assim como se este mesmo grupo sofre um percausto, a falha também deve ser assumida por todos. Não devemos nos abdicar daquilo que é nosso! Juntos somos mais poderosos que qualquer poder opressor, e os opressores sabem disso, e por isso valorizam o valor individual ao esforço coletivo.
O momento é propício de quebra de paradigmas, de revisão de conceitos e de mudanças. As velhas regras já não nos servem, tais como sandalias velhas infantis em pés adultos. O velho mundo precisa ceder lugar a um novo mundo, onde o homem pode entender a si mesmo por meio do próximo. O novo vai nascer! E o homem voltará a ser humano.

Um basta a tudo isso

Foto: André ArrudaPiquete no Complexo Verbo Divino do BB em 27/09/2011. Foto: André Arruda

Quantas foram às vezes em que nos vimos contestando alguma coisa em seu trabalho? Achar que é preciso mudar é natural e saudável, pois afinal, quem ama seu ofício se esmera sempre em aprimorar suas práticas com o intuito de tornar seu ofício melhor e reconhecido de valor. Num trabalho temos relações formadas em diversas partes, seja com clientes, superiores ou subordinados, e nessas relações temos momentos de conflito. E são nesses momentos críticos que surgem oportunidades de consenso. Mas este consenso deve vir da iniciativa de ambas as partes, caso contrário, o impasse leva ambos os lados a perdas.

Ultimamente, recebi críticas sobre minha defesa ao recurso da greve. Disseram-me que é mais fácil fazer uma greve do que fazer uma pós, que greve é terrorismo, que greve é prejudicar o povo, pondo-o como refém por conta de frustrações pessoais, e de que se não está satisfeito com o trabalho, procurar outro trabalho, e inclusive disseram que estamos reclamando de barriga cheia, pois havendo tanta gente desempregada, ficamos reclamando do emprego. Como se vê, os comentários acima que recebi tem algumas características que valem a pena comentar e compartilhar com vocês. Até porque tentar debater com os críticos que nos ofendem é cansativo e inútil, e sei disso por experiência própria, semana passada. E nada melhor do que utilizar o meu espaço para falar a respeito. Primeiramente, com o conformismo que impera neste país, é muito comum ouvir esse tipo de comentários, pois os críticos não se conformam justamente com quem não se conforma em ser explorado. Se quisermos um emprego melhor, que valorize e dignifique nosso esforço, primeiro queremos o em que estamos empregados seja melhor. Pois permitir ser explorado é assumir sua passividade diante dos fatos e renunciar a seu protagonismo, não sendo merecedor de nenhum mérito. Nossa cultura, em parte baseada em suas origens religiosas, nos impõe ao paradigma da dádiva. Acredita que tudo se dá nada se conquista, e que todas as nossas realizações provêm da indulgência de alguém ou de alguma organização. Isso nos leva ao paternalismo e ao conformismo como movimentos comportamentais que influenciam as opiniões de muitas pessoas. E com isso, todo o tipo de ação que contraria esta lógica de dádiva, não é tolerado. Esse conformismo leva nosso povo a uma situação de paralisia ideológica, enfraquecendo qualquer movimento que vá de encontro a essa lógica.

É preciso por um basta a esta anestesia sem cirurgia que toma conta deste país. O grau de paralisia é enorme. Há uma pressão inflacionária que o governo teima em dizer que é produtivo, mas a culpa exata é de uma carga institucional a qual não podemos arcar. A greve é uma manifestação legítima e deve servir de exemplo para um despertar. Não podemos nos contentar em trabalharmos sob pressão exaustiva sem o devido reconhecimento de nosso esforço. É importante mostrar a realidade dos insatisfeitos antes de tirarmos conclusões precipitadas.

O preconceito e a desinformação fortalecem essas críticas, reforçados por uma mídia tendenciosa. Sexta-feira houve uma passeata na capital paulista unindo bancários e funcionários dos correios em greve, com cerca de oito mil manifestantes. O evento foi veiculado na imprensa, porém a maior rede de televisão do país veiculou o protesto da seguinte forma:

Fátima Bernardes: Boa tarde! Sexta-feira de manifestações em São Paulo. Roberto Paiva.
Roberto Paiva: Funcionários dos Correios se reuniram aqui no Vale do Anhangabaú, e depois saíram em passeata pelas ruas do centro de São Paulo. No caminho se encontraram com bancários, que também estão em greve. As duas categorias pedem aumento nos salários. Os funcionários dos Correios marcaram pra segunda-feira uma assembleia aqui em São Paulo pra decidir se continuam em greve. Roberto Paiva para o Globo Notícia.

Essa foi a transcrição da matéria veiculada na televisão. Mas na internet a informação se encontra mais distorcida e tendenciosa (clique aqui para ler). Segundo a nota no site G1, o protesto reuniu cerca de 400 pessoas. Segundo a Polícia Militar havia 2.000 pessoas ali. Informar que a greve se propunha apenas requerer salários é jogar a população contra o movimento. A população sabe que a qualidade de atendimento dos Correios e dos Bancos decaiu muito e isso não ocorre por causa do funcionalismo e sim por um processo de gestão inadequado e focado apenas na produtividade sem considerar a qualidade dos serviços, pois isso onera e reduz a lucratividade dos negócios. Reitero que este modelo de gestão é arcaico e oriundo dos modelos capitalistas do início do século, os quais muitos dos gestores atuais dessas empresas pertencem a essa filosofia de gestão, que além de ser exploratória, é insustentável. O movimento grevista vai muito além da questão salarial, tem a ver com a qualidade do atendimento que não pode ser garantida apenas pelo funcionalismo pressionado e assediado moralmente, sem recursos apropriados, sem segurança ou tranquilidade para exercer suas atividades. É preciso conhecer a realidade do trabalhador que entra em greve antes de criticar sem fundamentos. A realidade do trabalhador dos correios e a do trabalhador bancário são muito duras, diferente do que é conhecido pelo público em geral. Nós, bancários sofremos com metas abusivas, controle de tempos e movimentos, assédio moral, falta de recursos, poucas contratações, ameaças de demissões e descomissionamentos e até nepotismo. Isto afeta a qualidade do nosso trabalho e também se reflete na percepção que o cliente tem de nosso trabalho, como se fossemos cúmplices do descaso que há nos bancos com os clientes: burocracia, operações casadas e até mesmo não autorizadas pelo cliente, filas, demora no atendimento, tarifas e taxas de juros exorbitantes. Mesmo com a quantidade de recursos eletrônicos disponíveis, um banco não opera sem o esforço e a dedicação do funcionalismo. O quadro funcional é o patrimônio mais importante de qualquer organização, pois é ela, e não as máquinas que fazem o sistema operar e funcionar, pois uma organização não vive de usos de produtos, sim de relações humanas. Não compactuamos com essa prática dos bancos que, com ou sem greve flagelam a população brasileira.

É importantíssimo que a greve ocorra, apesar dos transtornos causados a quem também é vítima da intransigência patronal, pois é uma importante manifestação de insatisfação diante de um modelo de gestão que precisa ser revisto em prol dos trabalhadores e da população brasileira.