A realidade

André Arruda, durante sua caminhada, filosofa sobre a realidade em que vivemos.

Há certos momentos em que a realidade se mostra implacável.

Às vezes tenho o privilégio de poder pensar com meus botões, fechar os olhos e deixar certos aspectos da realidade de lado, pois são às vezes tristes e desanimadores. Mas os olhos precisam se abrir em um certo momento e a realidade está lá, tal qual o horizonte que vislumbra sua janela todas as manhãs.

Se o vermos essa realidade com olhos tristonhos, vamos ver uma paisagem triste. Mas, se ao menos um detalhe dessa paisagem for motivador, aí o dia já estará ganho. E ainda a gente pode limpar nossa vidraça, ou ajudar o vizinho a arrumar o jardim descuidado, embelezando assim, o nosso horizonte.

Isso pois vemos o nosso universo como algo imponderável, que não podemos mexer, e que fatalmente nos tornamos reféns do destino que nos reserva.

Quando na verdade é o contrário.

Somos todos agentes de mudança. Entendo a realidade sob um foco sistêmico, em que somos parte dele. Tudo o que fizermos, de bom, ruim, e até mesmo na inação, trará reflexos sobre o universo que nos rodeia. Isto implica no seguinte: se não estamos satisfeitos com a realidade, teremos que fazer por onde para mudá-la, sempre entendendo nos reflexos das ações praticadas por nós, para que as consequências de nossos atos não apenas propiciem benefícios para nós, como para o universo da qual fazemos parte.

Tendo essa consciência, passamos a ser agentes de mudança em vez de vítimas das mudanças ocorridas. E qualquer ação, como a minha de escrever ou a sua, de ler esse texto até o final, são parte desse processo.

Vamos mudar a realidade, generosamente, para melhor?

Fitas verde-amarelas

André Arruda filosofa sobre a eliminação do Brasil na copa de 2018.

Ao voltar pra casa, me deparei com as ruas ainda enfeitadas de fitinhas verde-amarelas, mesmo após a triste despedida de nossa seleção brasileira desta copa do mundo.Os céticos ficariam perguntando qual a razão de tamanha perda de tempo e de recursos, sabendo que a chance de uma glória brasileira na copa do mundo é de cerca de 1/32 ou cerca de 3%, e que, psicologicamente tende a se esvair a cada fase, dada a dificuldade, ao contrário do que o avanço a cada fase se traduz, em termos matemáticos.Talvez estes céticos não entendem o poder que a esperança e a ilusão nos oferecem, em termos presentes e também futuros. Mesmo jogando com o aleatório e o incerto, ao nos iludir, vemos uma realidade mais próxima do que somos e do que desejamos para nós. Vemos o mundo sob outro prisma, mais colorido e entusiasmado, com mais vigor, com mais luz. E isso é contagiante. Parece estranho, mas aplicamos essa mesma visão esperançosa a nossos atos, acordamos mais dispostos, impomos a nossas ações a mesma energia a qual acreditamos e depositamos nossa torcida.Ao fantasiarmos nossa realidade, a testamos, e assim testamos nossos limites, testamos nossas possibilidades e, assim, evoluímos. O que seria do espetacular, se não imaginarmos o impossível?E até mesmo no desatino da derrota, a ilusão, sob a forma de desilusão, se faz presente, como forma de entendermos que vivemos em um universo com limites, e que estes nos balizam. A decepção do imponderável, pode se tornar a pedra angular da mudança, quando visto com olhos sábios.Sei que amanhã ou depois, as fitinhas não mais estarão nas ruas. Que as bandeiras do Brasil não mais irão enfeitar as janelas e varandas. Mas deste dia, eu vou continuar lembrando.Pois mesmo depois da noite triste, sempre haverá um amanhecer.

Reflexões (indagativas)

Por que será que para que uns poucos triunfem precisa haver tantos aniquilados?

Por que precisa fazer outrém sofrer, para sorrir?

Por quê precisa ter tantos prejudicados para que exista poucos beneficiados?

Por que nos incomoda a diferença, o triunfo alheio, aquilo que, mesmo tendo de sobra, não gostamos de ver nos outros?

Por que queremos esconder nossas fraquezas, e inventar virtudes que em nós não existem?

Por que precisamos ser padronizadamente perfeitos?

Por que nossas diferenças são consideradas defeituosas?

Por que somos proibidos de chorar?

Por que somos proibidos de falar o que pensamos, e por que nossas opiniões nunca são ouvidas com complacência?

Por que vivemos com medo?

Por que mais vale ter do que ser?

Por que faltar com caráter é uma alternativa a ser considerada?

Por que poder é uma obsessão?

Por que entender nossas crenças por leis estáticas e imutáveis?

Por que se defender com ódio e preconceito?

Por que tratar ideologia como briga de torcida, torcida como batalha mortal, e batalha como algo banal?

Por que meu sexo, minha mentalidade, minha opinião, meu gosto, minha atitude e minha ideologia precisam estar presas a paradigmas para serem aceitos?

Por que estou sempre errado?

Por que estou escrevendo isso?

POR QUÊ?

Divagações sobre o amor

O ato de amar é ver a nós mesmos em outro, de forma a este outro se tornar parte de si mesmo. É a auto-perceção no próximo, espelhada na alma e no sentimento. Quando esse amor é correspondido, deixam de existir dois seres, estes passam a coexistir como um todo formado por duas partes complementares. Quando é platônico, apenas um dos seres tenta, em vão, complementar o outro até que este amor termina, ou se torna uma obsessão patológica. Esta obsessão é um sentimento ilusório que aquele o qual sente acredita ser amor, mas não é.
Assim, de uma forma ou de outra, nos iludimos. O amor é tão abstrato que se confunde com possessão, atração, carência, afeição, pena… Deixa de ser complementar e se torna repulsivo, violento. Deixa de ser algo que complementa, para ser ponto de conflito, em que uma das partes busca abstrair da outra os empecilhos que os impedem de, harmoniosamente, se combinar.
A ilusão é inerente ao homem. Pois é o erro de sua perceção movido por seus preconceitos sentimentais e racionais. Por isso devemos aprender com os erros e as ilusões, pois corrigem nossos conceitos. E estes conceitos são conclusões transitórias, pois mudam no tempo, no espaço e no indivíduo. Aprendendo a conviver com os conceitos, desenvolvemos nossos valores que alimentam nosso caráter, e este compilado que é entendido e defendido por nós, pois devemos crer em nossos valores, designam nossa auto-estima.
Como a auto-estima é a crença nos valores que formam nosso caráter, e estes valores se formam para nós através de conceitos que, por sua vez, são obtidos por meio da experiência da interação com outros seres, podemos afirmar que o homem só é completo quando tem o amor.
E este amor é algo que vem do âmago do ser vivente, quando este entende a si mesmo e se identifica em outro ser.