Fitas verde-amarelas

André Arruda filosofa sobre a eliminação do Brasil na copa de 2018.

Ao voltar pra casa, me deparei com as ruas ainda enfeitadas de fitinhas verde-amarelas, mesmo após a triste despedida de nossa seleção brasileira desta copa do mundo.Os céticos ficariam perguntando qual a razão de tamanha perda de tempo e de recursos, sabendo que a chance de uma glória brasileira na copa do mundo é de cerca de 1/32 ou cerca de 3%, e que, psicologicamente tende a se esvair a cada fase, dada a dificuldade, ao contrário do que o avanço a cada fase se traduz, em termos matemáticos.Talvez estes céticos não entendem o poder que a esperança e a ilusão nos oferecem, em termos presentes e também futuros. Mesmo jogando com o aleatório e o incerto, ao nos iludir, vemos uma realidade mais próxima do que somos e do que desejamos para nós. Vemos o mundo sob outro prisma, mais colorido e entusiasmado, com mais vigor, com mais luz. E isso é contagiante. Parece estranho, mas aplicamos essa mesma visão esperançosa a nossos atos, acordamos mais dispostos, impomos a nossas ações a mesma energia a qual acreditamos e depositamos nossa torcida.Ao fantasiarmos nossa realidade, a testamos, e assim testamos nossos limites, testamos nossas possibilidades e, assim, evoluímos. O que seria do espetacular, se não imaginarmos o impossível?E até mesmo no desatino da derrota, a ilusão, sob a forma de desilusão, se faz presente, como forma de entendermos que vivemos em um universo com limites, e que estes nos balizam. A decepção do imponderável, pode se tornar a pedra angular da mudança, quando visto com olhos sábios.Sei que amanhã ou depois, as fitinhas não mais estarão nas ruas. Que as bandeiras do Brasil não mais irão enfeitar as janelas e varandas. Mas deste dia, eu vou continuar lembrando.Pois mesmo depois da noite triste, sempre haverá um amanhecer.

Prova dos noves

Considero sempre o evento da Copa do Mundo como uma espécie de “prova dos noves” de otimistas e pessimistas. Ao zapear na web notícias sobre o Jogo entre Brasil e Colômbia, pelas quartas de final leio comentários deste tipo:

Da Colômbia não passa. O Brasil está muito ruim!

O Brasil não vai vencer 🏆 esta copa.

Na sexta o Brasil sai da Copa!

Em contraste com outros comentários do tipo:

O Brasil vai ser campeão! O pior já passou!

A Colômbia é mais fácil que o Chile! Vamos avançar!

Vamos vencer mais uma! Vamos ser hexa!

Esse contraste é interessante. Ao ver um copo com água até a metade, podemos dizer que este copo está meio cheio, ou meio vazio. Nossas experiências, nosso aprendizado, nosso modo de ver e entender o mundo influenciam o nosso nível de otimismo.

Há dois lados nos extremos do otimismo. Otimismo demais leva as pessoas à ilusão, descolamento da realidade e a desilusão, quando a realidade imaginada diverge da realidade real. Pessimismo demais também nos leva a ilusão e descolamento da realidade, mas o pessimismo tem uma tendência de inação e fatalismo. Assim o pessimismo nos amedronta e nos paralisa, enquanto o otimismo nos propõe ação, nos inspira.

O realismo é uma leitura neutra, que se vale de um conjunto de evidências reais para pender ao otimismo ou pessimismo. É o fiel da balança.

O ser humano tem uma fixação pelo futuro, pelo incerto, pelo desconhecido. Especular o que há por vir ainda desperta em nós interesse e curiosidade. Religiões, astrologia, misticismo, ciências, probabilidades e achismos sempre procuraram tentar suprir a lacuna eterna da humanidade em conhecer o incerto.

Por isso não existe verdade mais absoluta que possa confirmar a incerteza e a inquietude que temos diante dela.

O que tem de ser, será.

Rompendo a barreira do espaço e do tempo

Eu assisti a um vídeo-clipe na internet, que me impressionou por um detalhe mais que formidável: mesmo este clipe sido produzido em 2013, a aparência é que este clipe foi filmado no fim dos anos 70, começo dos anos 80. O clipe a que me refiro é a da música de Bruno Mars, entitulada Treasure.

O trabalho tão bem feito e detalhado da produção do vídeo para que se parecesse antigo: cenários, formato de tela, efeitos visuais (Chroma key e imagens geradas por computador), captura em Video-tape, figurinos. De fato, uma forma de romper com o espaço e o tempo, de modo a fazer crer que Bruno Mars, numa viagem temporal, saltou de 2014 para 1980, ou o contrário.

Romper a barreira do espaço e do tempo não é um privilégio apenas da arte. As ciências humanas e exatas fazem-se uso de baixas tecnologias, ou de antigos métodos para atingir seus objetivos. Tanto para o bem, como, infelizmente, para o mal.

Um exemplo interessante de uso de baixas tecnologias foi a primavera árabe. Foi proibido o acesso a internet para que o movimento se desarticulasse, porém os jovens árabes passaram a se comunicar via SMS, o torpedo.

Um mal que vemos no rompimento da barreira do espaço e do tempo, são os teóricos fundamentalistas conservadores. Coloco nesse balaio, alguns exagerados de esquerda e direita, religiosos, e outros, que acreditam tolamente em suas teorias, estáticas por seus paradigmas, e que acreditam que a sociedade precisa voltar no tempo para seguir seu rumo.

Um exemplo desse rompimento do tempo para o mal, é a sequência de notícias de pessoas, organizadas ou não, para fazer justiça com as próprias mãos. Essa prática data dos tempos antigos, pré-cristãos, e mostra claramente que se essa prática ainda é cogitada, é porque não ensinamos nosso povo suficientemente a prática consolidada da cidadania. Ser cidadão não é fazer o papel do Estado, e sim, acioná-lo, quando preciso.

Podemos reviver boas práticas, que talvez nunca tivéssemos tido, como a convivência familiar, o respeito ao próximo, a defesa de nossos interesses cidadãos, a participação política, o interesse permanente no auto-desenvolvimento pessoal, e por fim, a busca da felicidade. São rompendo essas barreiras que fazemos como o artista: revivemos o bom do passado, para construirmos um bom futuro.