Tome que essa carniça é sua

Extraído de https://kazzttor.blogspot.com.br/2017/08/tome-que-essa-carnica-e-sua.html

As manifestações neonazistas e supremacistas ocorridas na cidade de Charlottesville nos Estados Unidos trouxeram ao Brasil, além das reações de condenação a estes atos, um insano debate.

Tudo porque um procurador da república, em seu Twitter, declarou que o nazismo era um movimento de esquerda, e as reações de militantes de esquerda foram raivosas. Inclusive nas publicações de militantes, havia menções argumentos do contrário, ou seja, que o nazismo era um movimento de direita. Acabei também participando de algumas discussões, mas um post que caiu no Facebook ajudou a buscar um esclarecimento sobre o que é realmente o nazismo (ou nazi-fascismo) em relação ao posicionamento político.

Mas para isso, é necessário revisitar a história. A primeira guerra mundial terminou em um Armistício (na verdade não é um acordo de paz, e sim um acordo formal onde as partes envolvidas concordam em parar de lutar, ou seja não é o fim de uma guerra), em que a Alemanha foi uma das principais derrotadas dessa guerra. Além de perder territórios, a Alemanha teve de arcar com uma pesada dívida de guerra, comprometendo sua economia. Por ser um país industrial, boa parte da receita do país era usada para o pagamento da dívida, o país enfrentou uma crise econômica e em 1923 teve uma hiperinflação em que os preços chegaram a subir entre 40 e 50 vezes, com excessiva emissão de papel-moeda e desvalorização vertiginosa do marco alemão.

Cédula de 50 bilhões de marcos alemães de 1923

A desvalorização era tamanha que as cédulas eram usadas como brinquedo para as crianças e após um plano de reavaliação monetária, as notas chegaram a ser usadas como papel de parede em estabelecimentos comerciais e bancários alemães.

Cédulas de marco alemão coladas como papel de parede

A crise econômica e a miséria ao qual a maioria dos trabalhadores alemães foi subjugado acabou se tornando o terreno fértil para o crescimento do nazismo. Como a classe média, militares e a classe trabalhadora alemães é quem sentiam os reflexos do Tratado de Versalhes (esse é o nome do documento após o armistício, que terminou a primeira guerra mundial), foi para eles o direcionamento do discurso do movimento nazista que emergia. O Nazismo, enquanto movimento político, surgiu com o partido nacional socialista dos trabalhadores alemães, que sucedeu o partido dos trabalhadores alemães. A figura de Adolf Hitler, foi a personificação do movimento, dotado de carisma, boa escrita e oratória.

Com o discurso voltado aos trabalhadores, o movimento nazista ganhou uma forte adesão, até o auge, quando Hitler se tornou Chanceler da Alemanha em 1933. O poder executivo alemão é dotado de um chefe de estado (o presidente) e um chefe de governo (o chanceler).

Colar sua imagem aos trabalhadores tinha duas finalidades: a primeira era atrair os trabalhadores para a causa nazista e a segunda é afastar o comunismo dos trabalhadores alemães. Tanto que comunistas também eram levados aos campos de concentração nazistas, além de serem alvos de perseguição.

Sabemos muito bem, que denominações partidárias, sobretudo no Brasil, não passam de mero formalismo. Mas no caso no partido nazista, tinham o propósito publicitário, ou seja, de se tornar atraentes a um público-alvo potencial, no caso, os trabalhadores alemães. Se analisarmos denominações partidárias brasileiras, como PSDB, PMDB, DEM, PTB, PP e outros, vemos que suas práticas não tem relação nenhuma com as denominações partidárias que ostentam em suas siglas. Um dos casos recentes mais emblemáticos é o do PMB, o partido da mulher brasileira, em que a todos os primeiros deputados filiados ao partido eram homens.

Há também um outro detalhe que diferencia nazismo de socialismo. O socialismo tem um caráter internacionalista enquanto o nazismo teve um caráter nacionalista, e até mesmo xenófobo. Se compararmos bem o socialismo atual, com o nazismo e o neonazismo atual, vemos também um outro caráter que põem estes dois movimentos em lados opostos. O socialismo atual é inclusivo e defensor de minorias, enquanto o neonazismo é favorável a segregação e até mesmo da eliminação de minorias, ou seja, uma postura excludente.

Segundo a maioria dos especialistas e até do próprio Adolf Hitler à época, o nazi-fascismo surgiu como uma terceira via do ponto de vista sócio-político-econômico, o qual Hitler definiu o nazismo como resultado de de um sincretismo político. Ou seja, nazismo não é, originalmente nem de direita ou de esquerda, mas podemos dizer que é um subproduto político de uma conjuntura política bastante conturbada, com a primeira guerra mundial, a revolução russa de 1917 e agravado pela crise de 1929. Isto gerou governos totalitários, como o de Mussolini na Itália, Salazar em Portugal, Franco na Espanha e outros. No Brasil, o Estado novo de Getúlio Vargas também recebeu influência do nazi-fascismo, com um estado totalitário, controle da imprensa e propaganda, nacionalismo e repressão política.

Hoje, muitos dos conceitos nazi-fascistas são disseminados em grupos de extrema direita, como o antissemitismo, homofobia, racismo, militarismo, xenofobia e disseminação de ódio.

As manifestações supremacistas em Charlottesville geraram protestos contrários por grupos antirracistas e houve confrontos. Mas o fato mais emblemático, foi o de um supremacista que atropelou um grupo de manifestantes antirracistas matando uma militante. A opinião pública mundial condenou os atos neonazistas e isto trouxe comoção internacional e reflexos na opinião pública no Brasil e no mundo. Foi um profundo revés à extrema-direita, representada pela vitória de Trump nos Estados Unidos, além outros movimentos de extrema-direita que emergem na Europa, como na França, Holanda, Itália, Hungria e Bélgica.

A direita brasileira reascendida após o impeachment de Dilma Rousseff, sobretudo a extrema-direita, via uma oportunidade de angariar mais poder, com o forte descontentamento da população brasileira com a política devido aos escândalos de corrupção, publicitariamente divulgados pela grande mídia com avidez e parcialidade. O que aconteceu em Charlottesville pode trazer consequências negativas às campanhas de direita e extrema direita, sobretudo os conservadores do PSC e a figura de Jair Bolsonaro, agora no nanico PEN. Os reflexos desse episódio podem acender um alerta, que não havia sido acionado na década de 1920, tidos como os anos loucos. O extremismo, xenofobia, racismo e homofobia, nacionalismo e fundamentalismo religioso são sintomas de uma sociedade doente e desigual. Ainda que haja alternativas para solução de uma sociedade global doente, todas essas alternativas passam pela política, pois foi a política que fez emergir ao poder lideranças que carregavam consigo lemas de rancor e ódio.

Também nos mostra um nível de polarização política ao pior estilo Fla-Flu, onde não são debatidos os assuntos de forma leal, e sim, como uma disputa infantil por território político. E para essa disputa, são usadas como armas boatos, manipulações dos fatos, meias-verdades, omissões de personagens ou destaque exagerado a outros, além de fatos propositalmente colocados ao mesmo tempo, para que um acoberte ou anule o outro. É o que podemos dizer, que vivemos na era da pós-verdade, onde a verdade é pouco importante, mas os fatos verídicos ou não, são armas para enfraquecer opositores.

Assim, vemos o neonazismo que perdeu a modéstia exalando o cheiro de carniça, a qual direita e esquerda se acusam mutuamente de ser o dono dela.


Referências

WIKIPEDIA. Hyperinflation in the Weimar Republic. (em inglês) Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Hyperinflation_in_the_Weimar_Republic Acesso em 19/08/2017

WIKIPÉDIA. Hiperinflação. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hiperinfla%C3%A7%C3%A3o Acesso em 19/08/2017.

WIKIPÉDIA. Partido da Mulher Brasileira. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_da_Mulher_Brasileira Acesso em 19/08/2017

COSTA, Camila. O nazismo era um movimento de esquerda ou de direita? Disponível no site BBC Brasil: http://www.bbc.com/portuguese/salasocial-39809236 Acesso em 19/08/2017

WIKIPÉDIA. Estado Novo (Brasil). Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Estado_Novo_(Brasil) Acesso em 19/08/2017

WIKIPÉDIA. Segunda Guerra Mundial. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Segunda_Guerra_Mundial Acesso em 19/08/2017

WIKIPÉDIA. Primeira Guerra Mundial. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Primeira_Guerra_Mundial Acesso em 19/08/2017

WIKIPÉDIA. Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_Nacional_Socialista_dos_Trabalhadores_Alem%C3%A3es Acesso em 19/08/2017

WIKIPÉDIA. Armistício. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Armist%C3%ADcio Acesso em 19/08/2017

Enquanto não entendermos que somos iguais, teremos que mostrar por que não somos diferentes

André Arruda comenta a questão da luta pela convenção social atrasada e injusta que vivemos, que subjuga aqueles que não pertencem a esse padrão a uma situação marginal.

Ontem foi o dia internacional da mulher. Foi um dia marcado fortemente por manifestações em todo mundo pela igualdade de gênero, luta mais que centenária, mas que ainda não atingiu plenamente seus objetivos. Eu não escrevi nada para a ocasião, até mesmo para não parecer oportunista. Pois a luta aqui é para que possamos levar a crer a todos que defendem o senso comum de normas de superioridade, de que não existe nenhum ser humano mais superior que outro, por condição de gênero e identidade de gênero, cor, orientação sexual, crença, nacionalidade, ausência ou presença de alguma particularidade, ou qualquer outra característica que diferencie uma pessoa de outra. Diferenças são propostas como vantagens ou desvantagens competitivas por mera convenção leviana. Leviandade esta, convencionada por grupos que se entitulam dominantes, e que tecem essas convenções com o único intuito de servir a seus interesses dominantes. Não obstante que aqueles que ousam subverter a essas convenções, de uma forma ou de outra, acabam perseguidos.

Os dias que celebramos todos os anos a luta pela igualdade, como o dia da mulher, do orgulho LGBT, da consciência negra, e outros, não servem apenas como uma homenagem, e sim como um símbolo de luta contra a segregação ditada por essas convenções. Mas por muitas vezes, vemos de forma velada e até mesmo escancarada, o escárnio e a hipocrisia que algumas pessoas e grupos levam a questão da igualdade no grupo social. As infelizes declarações do presidente Michel Temer, mostram uma visão patriarcal e machista da mulher pelo homem, na qual, sua função é apenas acessória, de ajudante de marido, de coadjuvante da sociedade. Também vemos empresas que falam abertamente em apoiar a mulher em cargos de gestão, mas se não definir metas de participação feminina em cargos de alta gestão e promover a abertura para a mulher na gestão empresarial, esse apoio não passa de um discurso demagogo.

Certa vez, vi na televisão uma apresentação de uma médica cadeirante, sobre a questão da acessibilidade. Ela disse que grupos de pessoas com deficiência decidiram que, para que a assesibilidade fosse de fato efetiva, era necessário a participação das próprias pessoas com deficiência na elaboração das soluções e decisões. Assim surgiu um termo que pode ser aplicado a qualquer grupo que almeja a igualdade: “nada se decide sobre nós, sem nós”. E isso é perfeitamente coeso, pois o ponto de vista do espectador, nem sempre é o mais adequado para se tomar uma decisão. Não se pode estabelecer uma política de combate ao racismo sem os afrodescendentes, ou uma política de combate a homofobia sem a presença de LGBT’s.

E é aí que se encontra o cerne da desigualdade. Está no ego humano a defesa de seus próprios interesses. E aqueles que estão no comando de governos e corporações são aqueles que, em sua maioria, defendem as convenções que não são igualitárias. Tanto é que vemos claramente as distorções no mercado de trabalho, no tocante ao que essas convenções chamam de “minorias”, pois dentro de um grupo fechado e definido por estas convenções, estes grupos são de fato minoria. Porém, ao ampliarmos o foco para a população inteira, vemos que não se trata de uma minoria e sim de um grande contingente de pessoas marginalizadas por uma convenção social atrasada e injusta.

Esse padrão social convencional só irá se colapsar se as forças que as combatem entenderem que unidos e solidários, poderão vencê-los, e com isto instituir uma nova forma de relação social e humana, baseado não nas diferenças e sim nas capacidades de cada um. A luta do trabalhador, da mulher, do negro, do LGBT, das pessoas de crença de matriz africana e de tantas outras que são marginalizadas de alguma forma pela sociedade da convenção social, é uma luta que pode vista como conciliadora, inclusiva e poderosa, se articulada.

Enquanto não entendermos que somos iguais, teremos que mostrar por que não somos diferentes.

A “heterofobia”

Vi estampada na capa de uma revista voltada para o público cristão a matéria destacada sobre o que eles chamam de “heterofobia”, ou o movimento dos ativistas LGBT contra os cristãos e contra a defesa da heterossexualidade.

Ao ver destacada na capa da revista tal matéria, a qual confesso que não li o seu teor, fiquei pensando o que seria a realidade heterofóbica, em comparação a outra realidade, a da homofobia.

Nunca ouvi falar em casais heterossexuais sendo reprimidos por demonstrar carinho em público, sequer sofreram agressão física ou verbal por se beijarem, ou andar de mãos dadas. Também não conheço nenhum caso de uma pessoa ser impedida de frequentar um local gay por ser hetero, ou ser preterido em um processo seletivo por preferir sexualmente pessoas do sexo oposto. Também nunca ouvi falar de pessoas estupradas por gays e lésbicas (exceto quando estas pessoas têm transtornos psicológicos severos) para “correção de sexualidade”. Tampouco vi homens e mulheres mortas por gays pelo simples fato de ser heterossexuais. 

Daí concluí: a homofobia é uma triste realidade, já a heterofobia, é uma farsa.

A defesa desses cristãos em vilanizar a comunidade LGBT e forjar uma verdade como farsa e uma farsa como verdade é simples. Os paradigmas que os sustentam como poder e influência sobre as pessoas. O poder dessas igrejas está calcado nestes paradigmas (sexo apenas para reprodução, e obediência severa aos dogmas cristãos entre outros).  Porém vemos que a realidade não é estática tal qual prega a Bíblia, mas dinâmica, pois o tempo, as circunstâncias e a sociedade mudam. A diversidade sexual é para os líderes cristãos uma severa ameaça a seus fundamentos pois mostra ao homem, através de sua mais primitiva fonte de prazer, que sendo esta livre, esta liberdade se expande para o pensamento a atitude e o livre arbítrio.

Vai ter quem discorde comigo, contra-argumentando que a heterofobia é sim uma ameaça, que está no início e que deve ser extirpada o quanto antes, para que não se expanda e saia do controle. Mas ao nobre incauto, lhe questiono, para que possa refletir: por qual razão a homofobia, quando começou a ser levantada como ideias nas mentes e conversas não teve a mesma oposição e combate?

Portanto não devemos cair na tolice de defender uma ameaça que na prática, não existe, e que serve apenas para alimentar outra, real, aniquiladora e covarde. 

Você não está sozinho

Você não está sozinho. Ao ouvir do próprio pai, que preferia ter um filho bandido a ter um filho(a) gay. Ao ter de ocultar de tudo e de todos os seus sentimentos. A não poder andar de mãos dadas, beijo, nem pensar. Ao ouvir risos de seus trejeitos, de sua voz, de seu jeito de ser.

Você não está sozinho. As caras feias que lhe mostram. As frases que lhe indignam. As opiniões que lhe desagradam. Aos pedidos infundados de decência. Ao abandono da família, de muitos amigos (que de fato não o são), das igrejas, do estado, do mundo.

Você não está sozinho. Está carregando injustamente todo mal e culpa do mundo. Está sendo usado como alvo para intriga e disputa de poder. Está amedrontado, estigmatizado, humilhado, muitas vezes agredido, sem defesa, sem merecimento de compaixão.

Você não está sozinho. Você foi levado na conversa, foi iludido, levado a uma emboscada, surrado, com as pernas quebradas, com o pescoço quebrado, jogado no matagal, com a boca cheia de papel, onde está escrito todo o ódio e estupidez ao qual um ser humano pode descarregar contra seu semelhante.

Você não está sozinho. Sua morte é um sinal de alerta. Um alerta de que um de nós não pode sofrer toda essa covardia sozinho em vão. De que você é um mártir que deve simbolizar em todos nós que a intolerância e barbárie precisam morrer, para nascer em nós a tolerância e o respeito ao próximo. Pois estamos cansados de ver amigos nossos tombando em solo mãe gentil sem que nada seja feito.

João Antônio Donati: você não está sozinho.

A morte do estado Laico Brasileiro

Em sua jornada eleitoral, Dilma Rousseff, candidata à reeleição, disse que “o Brasil é um Estado laico, mas feliz a nação cujo Deus é o Senhor”. Esta frase trouxe preocupação a todos os defensores de um estado laico, já que a laicidade do estado está no princípio de não conceder nenhum benefício ou privilégio a um credo.

Há muito tempo que um certo movimento evangélico popular vem empreendendo lobby político, visando a defesa de seus interesses. Porém estes interesses, muitas vezes esbarram no estado de direito e no estado laico. Por esta razão os evangélicos passaram a participar cada vez mais da política, com um público cativo de seus fieis, além de já comporem uma bancada no congresso nacional. Seu maior feito foi presidir a comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos deputados com o Pastor Marco Feliciano (PSC-SP).

Esta eleição será a primeira com um candidato a presidência pastor evangélico (Pastor Everaldo do PSC) e já conta com dois partidos representantes de seus interesses: o próprio PSC e o PRB, ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, e que compõe chapa com a candidatura de Dilma.

Dois projetos capitaneados pelos evangélicos são ameaçadores a alguns grupos, como o movimento LGBT e os movimentos de defesa do estado laico. Há projetos que prevêem a inclusão de lideranças religiosas cristãs entre os grupos que podem propor ação direta de inconstitucionalidade (privilégio exclusivo do presidente, governadores, senado, câmara, governadores de estado, procurador-geral da república e OAB nacional para propor junto ao STF que uma lei seja inconstitucional), e o estatuto da família, que estabeleceria que o casamento só seria permitido no Brasil entre um homem e uma mulher, tornando ilegais todos os casamentos gays registrados no país.

Na África, a influência negativa de missionários cristãos, além da de fundamentalistas islâmicos, em alguns países tem causado resultados trágicos. A perseguição contra homossexuais em Uganda é o exemplo mais emblemático. A lei Anti-gay aprovada este ano, que porém recentemente revogada, é prova de que quando se mistura religião e política, o resultado na maioria das vezes é desastroso. Há cerca de 20 anos, o processo de homofobia institucionalizada vem ocorrendo em Uganda, inclusive com casos absurdos de jornais publicando nomes e endereços de pessoas homossexuais, assumidas ou não, sem contar as perseguições e assassinatos de homossexuais, que na maioria dos casos, não tem seus agressores punidos. A África se tornou um terreno fértil para atos de intolerância religiosa, dado ao fato de que foi colonizado pela Europa e a colonização trouxe um processo de destruição das raízes culturais e da auto-estima de seu povo.

Segundo a organização não-governamental de defesa dos direitos LGBT All Out, em 77 países do mundo a homossexualidade é enquadrada como crime, inclusive com a pena de morte em alguns deles.

O Brasil viveu sob 21 anos sob uma ditadura, onde as liberdades individuais eram restritas. Hoje vivemos em um país livre e democrático. Mas é preciso bom senso. A vontade de muitos (muitas vezes induzida por alguns) não pode induzir o Estado a restringir o direito que as pessoas tem de ser o que são. O amor é um direito inegociável e irrestrito a todos os seres humanos!

Preconceito: O lado sujo do futebol

Hoje vi a repercussão de uma demonstração de afeto que abriu a caixa de pandora do futebol brasileiro, como já ocorrido outras vezes. O atacante Émerson, do Corinthians, publicou uma foto a qual ele beijava um amigo. Foi um selinho, mas suficiente para provocar reações de indignação e ira por parte de torcedores corintianos. Hostilidades, pedidos de saída e mensagens homofóbicas tomaram a timeline das redes sociais.

O assunto homofobia é tido como tabu: pouco se debate, exceto na comunidade LGBT, muito se evita ou combate a intolerância, até mesmo sendo incentivada em alguns locais, entre eles, o futebol.

Em um país onde a mulher era proibida de praticar o futebol até 1983, a presença do machismo e homofobia no futebol brasileiro tornou-se elemento da cultura futebolística e reforça a tese de que há muito o que ser feito no Brasil para que o preconceito seja extirpado de nossa sociedade.

Parte da culpa disso se dá na mídia, quando ela polemiza em vez de propor uma opinião mais adequada ao respeito e à inclusão. A imprensa marrom do futebol brasileiro, para vender jornais ou arrebanhar audiência para seus programas de rádio e TV buscam defeitos em clubes e atletas, pois ganham com o distúrbio, com o caos, com a confusão, atingindo assim a notoriedade.

O futebol é um esporte popular, mas suas raízes elitistas ainda são percebidas pela figura do moralismo e do machismo. Alguém se lembra, que no início do século XX, os futebolistas negros e pardos tinham que se maquiar com pó-de-arroz para entrar em campo? Isso acabou quando surgiram grandes futebolistas negros, como Leônidas da Silva e Pelé, que mostraram que habilidade não tem relação com a cor da pele. Será que haveremos de ver algum craque futebolista assumidamente gay, para desmistificar esse incômodo preconceito?

Aliás, qual a relação existente entre habilidades pessoais e homossexualidade? Não existe nenhuma tese que comprove tal fato. Portanto, considero que qualquer insinuação que indique que um homossexual seja inapto a desempenhar qualquer atividade seja descabida, preconceituosa, e acima disso, desrespeitosa. E digo mais: qualquer demonstração de afeto não pode ser vista como conotação sexual. Foi o que aconteceu em São Paulo, nos ataques homofóbicos na Paulista, ou no interior de São Paulo, quando pai e filho foram agredidos por andarem abraçados na rua.

Vejo que as manifestações homofóbicas muitas vezes tem origem em torcidas organizadas, como o ocorrido no Palmeiras, ano passado, e agora com a camisa 12 protestando na porta do CT. Esta mais que provado que é nas torcidas organizadas que vemos encubado nas torcidas sentimentos de ódio e preconceito. Que tal acabar com elas?

Faço minhas as palavras de Emerson ao comentar as reações negativas de seu corajoso ato contra a homofobia no futebol: “Preconceito babaca”. E aproveito para concluir: preconceito é coisa de babaca.

Feliciano e os “pais de família”

Hoje fui surpreendido por mais uma declaração infeliz do charlat…, quer dizer, pastor e deputado Marco Feliciano, alvo de protestos contra sua permanência na presidência da Comissão de Direitos Humanos da câmara dos deputados. Segundo o próprio, não existem pais de família ali nos protestos. O intuito da declaração, proferida no programa do Ratinho no SBT, é de claramente colocar os manifestantes contra a opinião pública, taxando-os de alienados e desocupados.
Mas se a família é tida como a unidade nuclear de toda a sociedade, Feliciano, além de lançar uma declaração altamente infeliz e preconceituosa, mostra claramente sua opinião retrógrada sobre o conceito de família.
Casais sem filhos, pessoas que moram sozinhas, pessoas solteiras com filhos, casais homossexuais também são famílias, Feliciano! E todas elas estavam defendendo o direito de serem reconhecidas como famílias em um estado que é tido como laico. Você tem todo o direito de discordar desses novos conceitos de família, mas tem a obrigação de respeitar essas pessoas, pois o senhor não representa apenas os seus fieis, mas todo o povo brasileiro, lembre-se disso! E portanto, suas opiniões não devem estar acima dos anseios do povo, pois em um regime de eleição como o nosso, o senhor não representa apenas os fieis que votaram no senhor, mas numa parcela muito maior da sociedade que espera do político um servo do povo e não um servo de si mesmo.
Pelo bem do povo brasileiro, fora Feliciano! Não é possível que em 2013 ainda exista o facismo troglodita, travestido de moral religiosa.