Brasil: o país da trapaça

André Arruda expõe o dano de um país onde a regra social suprema é a trapaça. Também aborda o mito de herói e vilão no Brasil.

O Brasil é o país da trapaça! Está provado isso! A cada novo escândalo, vemos como a trapaça que presenciamos exposta aniquila a todos nós em um clima permanente de desconfiança, nos deixando sitiados.

O Brasil tem uma carta Magna, mas a lei que todos obedecem não está escrita nela: é a Lei de Gerson, onde é norma suprema levar vantagem em tudo. O desejo do sucesso a qualquer custo pode nos inspirar a viver de improviso, mas a tentação maior recai sobre a trapaça, que é o uso da inteligência para burlar regras, enganar pessoas e organizações, obter vantagem por meios escusos. O jeitinho brasileiro é uma faca de dois gumes, onde o lado em que o manipulador segura é embebido em entorpecente, para que o manipulador não perceba que está se prejudicando ao trazer dano a outrem. Essa onda de desrespeito generalizada que nosso país se inoculou tornou-se uma pandemia moral que pode levar nosso país ao abismo. 

O escândalo das carnes nos mostra a ganância levada às últimas consequências. Fraudar o alimento a ser vendido é quase como uma tentativa de homicídio em nome do lucro. Maximizar o escândalo com todo o enredo generalizado por uma instituição que deveria ser responsável pelo cumprimento das leis, como a polícia federal, é uma tentativa de suicídio da soberania nacional, com graves consequências a milhões de inocentes em meio a um clube de culpados. A generalização é um álibi. A cada vez que surge um escândalo, coloca-se a marca da organização como escudo: o torcedor da torcida organizada X, o político do partido Y (desde que esse partido não seja aliado de seus interesses), o funcionário da empresa Z, o servidor público, o grevista, o manifestante, o policial, o gay, o travesti, o macumbeiro… O Brasil tem o hábito de personificar os heróis e coletivizar os vilões, mesmo sabendo que o grupo ao qual pertence não tem relação nenhuma com sua má índole.

A forma como agem os malfeitores desse país vai de encontro com a maneira com com julgam as malvadezas. Assim passam incólumes e anônimos, e isso os protege. Somente se personifica um vilão quando conveniente que seja destruído, mesmo que não seja de fato vilão. O vilão personificado é o herói potencial que pode abalar um poder estabelecido, é quem pode arregimentar forças para derrubar o status quo. Só ver os exemplos de Zumbi, Tiradentes, Lamarca, Lula e outros: são líderes populares, e no momento histórico em que estiveram, foram os vilões personificados.

A visão coletivizada do vilão, exceto quando personificar o vilão é conveniente, além de proteger o autor do mal, o banaliza. A banalização do mal é o prelúdio da barbárie, pois provoca nas pessoas a inação, o conformismo, ou a hipócrita indignação sem uma ação corretiva, ou reação provida de má-fé, vaidade ou prepotência.

É demagogia exigir o fim da corrupção, quando corrompemos, ou nos deixamos corromper em situações cotidianas. Mesmo sem querer, usurpamos regras e somos corrompidos pela mídia e pela pós-verdade. Cremos naquilo que nos convém, debatemos com o diferente para derrota-lo, não para compreendê-lo. 

Vemos a honestidade como exceção, não como regra. O caso do jogador de futebol que corrigiu o árbitro, após aplicar cartão amarelo, foi cultuado pela mídia, mas no meio futebolístico gerou controvérsia, onde o próprio colega de time, sutilmente o criticou ao dizer que preferia ver as mães do adversário tristes do que ver tristes as suas próprias. Em um ambiente exageradamente competitivo, a vantagem deve ser obtida, mesmo que indevidamente. Isso também justifica empresas serem alvo de reclamações dos consumidores, por contratações indevidas, sem no entanto mudar de atitude, para coibir tais atos. O objetivo é bater as metas, e eventuais reclamações são resolvidas de uma forma ou de outra. 

A cultura da trapaça só pode ser derrotada no Brasil, com educação e exemplo. O fim da impunidade é um note a ser alcançado para que o Brasil possa se acostumar a aprender a ser honesto. 

A pior ditadura é a falsa justiça

André Arruda comenta sobre foto publicada em redes sociais que retrata o protesto na Alemanha contra o juiz Sérgio Moro, durante palestra. No protesto, um cartaz dizia que a pior ditadura é a falsa justiça.

​Vejam essa foto publicada pela Mídia Ninja em sua conta no Instagram: https://www.instagram.com/p/BN0ReMxBF8p/

Era necessário compartilhar isso. O único protesto em uma palestra proferida pelo juiz Sérgio Moro na Alemanha é uma verdade que precisa ser dita como um murro na cara de quem ainda o defende. 

A pior ditadura é a falsa justiça.

A Alemanha conheceu muito bem como a falsa justiça funcionava no estado de exceção nazista, em que uma pessoa era condenada a morte por ser judia, comunista ou homossexual, ou pertencer a qualquer outra minoria que não era alinhada com a “raça ariana”. 

O mais curioso são os repetitivos e ignóbeis comentários desta foto publicada pelo Instagram pela Mídia Ninja, daqueles que ainda o defendem. O primeiro argumento é comparar o termo ditadura com as ditaduras comunistas. Ora, parece que essas pessoas nasceram ontem: faz 31 anos que nosso país viveu uma ditadura militar que também atuou como um estado de exceção com perseguições, mortes, torturas e desaparecimentos de pessoas que se opunham a seus propósitos. Depois que, culpa-se apenas ao “comunismo” a razão de haver ditaduras comunistas, o que mostra o nível raso de argumento destes, pois existem também repúblicas democráticas com princípios socialistas. E quanto as ditaduras, de fato foram estados de exceção, mas não por culpa da filosofia político-econômica, mas por uma questão de circunstâncias, oriundas de um profundo antagonismo. 

Façamos uma reflexão, trace as ligações de Moro com políticos e verá diversas conexões com um certo partido político. Também vemos o tratamento que ele deu ao caso Banestado, que foi, em termos de desvio de dinheiro público e enriquecimento ilícito ainda mais escandaloso e de maiores valores que a Lava Jato.

Concluo com os versos de Cazuza:

Meus heróis morreram de overdose

Meus inimigos estão no poder

Ideologia, eu quero uma pra viver