Abre-alas

André Arruda rememora momentos em uma reflexão sobre o ano de 2016 que caminha para a reta final.

Hoje é primeiro de setembro e me dei por conta que falta apenas um quadrimestre para o término de 2016. Mas ao puxar as reminiscências conexões improváveis surgiram.

Hoje, o Corinthians comemora 106 anos. E ao lembrar do Corinthians, lembrei de Doutor Sócrates, que comemorava os gols com o braço direito erguido para o céu. Sócrates era um dos líderes da Democracia Corinthiana, e foi uma das personalidades que apoiaram a campanha pelas diretas em 1984.

Ao lembrar disso, também lembrei do impeachment que foi confirmado ontem. Lembrei que, assim como em 1984, a vontade dos parlamentares prevaleceu contra a vontade de milhões de eleitores. E que, assim como em 1989, a mídia manipulou escancaradamente a opinião pública para que o impeachment fosse aceito.

Ao lembrar de Sócrates também lembrei dos Panteras Negras, com o gesto dos punhos cerrados e braços erguidos nas olimpíadas. O que me fez rememorar os jogos olímpicos do Rio de Janeiro, onde muitas barreiras foram rompidas, sendo uma olimpíada de muita diversidade. 

Muitas lutas a travar, pela democracia, pela justiça, pela diversidade, pelo respeito. Falta pouco tempo para terminar o ano, e fica a questão de que legado devemos começar a deixar para o futuro. 

Vai com medo, mesmo!

André Arruda rememora momentos vividos em atuações anteriores como voluntário.

Hoje tenho o primeiro passo para o início de uma jornada. Estou a caminho do Rio do Janeiro pois em breve estarei atuando como voluntário nos Jogos Olímpicos.

Já é o terceiro grande evento no país que atuo voluntariando. Já participei da Copa das Confederações em 2013 e da Copa do Mundo, no ano seguinte. E ao rememorar essas experiências fui tomado de súbita emoção. Isto pois lembrei de alguns momentos em que lágrimas caíram de meus olhos.

Era dia 20 de junho de 2013. Uma onda de protestos varria o país no meio da Copa das Confederações. Naquele dia estava de folga, e mesmo sendo voluntário em um evento FIFA, eu fui a um dos protestos. Fui pois eu entendi que mais do que a insatisfação com a copa, havia uma enorme insatisfação com o poder público do Brasil, que exige muito (impostos, leis, burocracia) e oferecia pouco (serviços públicos de qualidade e garantias individuais). Ao chegar no centro do Rio, vendo aquela multidão de jovens que pacificamente protestavam, entoavam palavras de ordem e cantavam, eu me emocionei. Ao cantar o hino nacional junto com aquela multidão, lágrimas caíram de meu rosto. Me sentia parte daquilo. Me sentia protagonista da história do Brasil naquele momento.

Naquele dia 12 de junho de 2014 foi diferente. A emoção era outra. Era a de um amante do esporte bretão. Eu até então não estava escalado para atuar na abertura da Copa. Na última hora fui escalado para atuar. Foi um dia inteiro de trabalho e no final, consegui uma permissão para ir à tribuna de imprensa, onde tive experiência de ver pela primeira vez (mesmo que seja por alguns minutos) uma partida da seleção brasileira no estádio. E pude ver o gol do Oscar, do mesmo ponto de vista de jornalistas e torcedores presentes. Ao terminar o jogo, a sensação do dever cumprido. A abertura da Copa foi um espetáculo, e ajudei a fazer isso possível, juntamente com todos os outros voluntários e profissionais. Saí da tribuna com os olhos marejados. Também me senti parte daquilo.

Identidade e pertencimento é algo que nos dignifica, quando os percebemos. Talvez seja por isso que tanto se coloca nas pessoas uma cultura individualista. Pois uma cultura coletivista é perigosa para quem oprime e quem almeja privilégios. Por isso a enganação da força do herói solitário. Mas como diria a música de Baiano e Os Novos Caetanos (Parceria de Chico Anysio e Arnaud Rodrigues), o herói é o caba que não teve tempo de correr.

Talvez seja essa a lição que tiro dessas experiências. E isso se traduz na reação das pessoas ao dizer que vou aos jogos olímpicos, voluntariar. Elas me perguntam se eu não tenho medo de ir. Eu respondo com uma frase que li em algum lugar que diz:

Se tiver que ir, vá! Mas se estiver com medo, vá com medo mesmo!

Já vivi algumas experiências que me assustaram, que me deixaram com medo, mas entendo que o medo, não deve te travar, você tem que enfrentar. É um desafio. Apesar de outros medos que tenho, eu levo adiante a vida com eles, enganando-os ou buscando alternativas. Mas é preciso encarar o medo de frente, em alguns momentos. É o seu karma, faz parte do seu desafio vital.

Mas, pensando bem, ao rememorar minhas lembranças, minha resposta seria outra. Ao me perguntarem se eu não estaria com medo eu responderia:

Eu não estarei sozinho.

Nada tão abrangente, tão singular e tão controverso.