Marielle e Madalena

André Arruda fala sobre a morte de Marielle, relacionando com Maria Madalena.

Uma notícia me pungiu de dor. Marielle foi morta. Uma mulher de fibra, de favela, do povo do Rio, uma lutadora guerreira. Isso me lembrou de Madalena.

Madalena, foi acusada de adultério. Estava prestes a ser condenada, mas um profeta de Nazaré, mostrou a aqueles que a perseguiam que todos somos iguais em virtudes em defeitos. E que o ódio os condenavam. Isso me relembrou Marielle.

Marielle ousou defender o povo humilde, criticou a intervenção de segurança do estado do Rio, denunciou a violência policial, foi a antítese do senso comum do povo da periferia e da favela: formada na universidade, não se dobrou ao crime organizado, nem se contentou em ser lacaia de uma sociedade brasileira patriarcal, elitista e excludente. Isso me fez lembrar novamente de Madalena.

Madalena teve sua história amputada pelo cristianismo. Sua história não se resumiu a apenas um episódio. Há evangelhos apócrifos que descrevem Madalena como apóstola. Uma liderança feminina e lutadora que não seria admitida em um universo em que o homem sempre foi líder. Isso me lembrou Marielle.

Pois querem covardemente amputar sua história, com omissões e mentiras. Omitem que ela tem uma companheira, e que é militante feminista e LGBT. E mentem quando dizem que ela tinha relação com o tráfico, que foi eleita pelo comando vermelho, que foi mãe adolescente.

As pedras de ódio que não atingiram Madalena foram os tiros que atingiram e mataram Marielle.

O ódio e a insanidade são as regras invisíveis que regem nossa sociedade. Atos covardes praticados de humanos contra humanos por egoísmo, vaidade e insensatez.

Madalena representava tudo que naquela época, era a mudança necessária que rejeitavam.

Marielle representa tudo o que hoje precisamos mudar para que possamos nos ver como iguais.

Poderíamos ser todos Madalenas e não fomos. A história nos deu outra oportunidade. Sejamos todas as pessoas Marielles.

Marielle vive!

Marielle, presente!

Um dia de domingo

Reflexões de aniversário do autor do blog, usando como ponto de partida o nascimento.

Era um domingo em São Paulo, quando nasceu à luz do meio-dia, um menino branco, filho de uma mulher pernambucana e pai mineiro, ambos operários e colegas de trabalho de uma fábrica de eletrodomésticos.

Difícil imaginar como seriam os dias seguintes: o primeiro choro, as primeiras fotos, o batizado, os primeiros passos, a primeira palavra, os brinquedos, as brincadeiras e os primeiros amigos, o primeiro dia de escola com as primeiras palavras lidas e escritas.

Nascer é uma dádiva. E viver é o seu prosseguimento e justificativa. Por vezes, os dilemas e desatinos nos questionam se viver é de valia, muitas vezes nos colocando em rota de colisão com nós mesmos. Mas basta olharmos para o momento em que a dádiva da existência nos fez surgir, para termos a certeza de que nada ocorreu a esmo em nossas experiências vividas, e que não devemos desperdiçar cada minuto em lamentações pelos desatinos que sofremos.

Pois o tempo é um bem precioso, finito e não-renovável.

Sempre lembramos disso quando relembramos o dia que nascemos, data essa chamada de aniversário, estando acompanhados dos melhores amigos, ou abraçado à fria solidão.

Até hoje, se passaram trinta e quatro anos. E, coincidentemente, é domingo, o mesmo dia da semana em que nasci.

Pode significar nada, absolutamente, mas é um dia inteiro em que podemos memorar, refletir, rir e chorar.

Enfim, um dia de domingo.

Reflexões (indagativas)

Por que será que para que uns poucos triunfem precisa haver tantos aniquilados?

Por que precisa fazer outrém sofrer, para sorrir?

Por quê precisa ter tantos prejudicados para que exista poucos beneficiados?

Por que nos incomoda a diferença, o triunfo alheio, aquilo que, mesmo tendo de sobra, não gostamos de ver nos outros?

Por que queremos esconder nossas fraquezas, e inventar virtudes que em nós não existem?

Por que precisamos ser padronizadamente perfeitos?

Por que nossas diferenças são consideradas defeituosas?

Por que somos proibidos de chorar?

Por que somos proibidos de falar o que pensamos, e por que nossas opiniões nunca são ouvidas com complacência?

Por que vivemos com medo?

Por que mais vale ter do que ser?

Por que faltar com caráter é uma alternativa a ser considerada?

Por que poder é uma obsessão?

Por que entender nossas crenças por leis estáticas e imutáveis?

Por que se defender com ódio e preconceito?

Por que tratar ideologia como briga de torcida, torcida como batalha mortal, e batalha como algo banal?

Por que meu sexo, minha mentalidade, minha opinião, meu gosto, minha atitude e minha ideologia precisam estar presas a paradigmas para serem aceitos?

Por que estou sempre errado?

Por que estou escrevendo isso?

POR QUÊ?

A última alvorada de 2012

31 de dezembro, três da manhã. Ponho-me a escrever. Paro. Penso. Começo a puxar pela memória os outros 365 dias de 2012. Dias de luz, dias de penumbra. Dias de ação, de reação, ou de inação. Dias para esquecer, para lembrar para sempre. Dias em que cresci, e dias que lembrei que precisava crescer. Todos os dias e todas as noites vivemos, mesmo sem perceber. E por ser hoje o último dia de nossas vidas em 2012, convido ao nobre leitor a refletir em todas as direções: o que ficou pra trás (passado), o que está ao seu lado (presente) e o que está a sua frente (futuro).

Recolha do que ficou pra trás aquilo que lhe trouxe sabedoria: as lembranças e as lições de vida lhe serão muito úteis para o que está por vir e você vai precisar deles. Ao seu lado está seus valores, seu caráter e as pessoas que o rodeiam, pois serão excelentes conselheiros e indicarão o caminho e a forma a imprimir seus passos. E à frente existem as oportunidades, os desafios e a incerteza, pois o acaso sempre se faz presente e devemos estar preparados para ele.

Construa, aos poucos, seu destino, não tenha pressa. Uma edificação firme começa por bons alicerces em terreno bem escolhido. Por isso, avaliar seu passado, observar o presente e antever o futuro são os melhores conselhos que alguém possa receber no ano que começa, onde as esperanças se renovam.

Abra a janela, deixe o sol entrar! Seja bem-vindo, 2013!