17 de abril de 2016, 23:07: um atentado contra a democracia brasileira

André Arruda comenta sobre a votação do impeachment de Dilma Roussef na câmara e seus desdobramentos.

A verdade é que o jogo sujo da política brasileira tem muitos nomes, CPF’s, CNPJ’s e Offshores fora do Brasil, cujo líder é Eduardo Cunha.

Hoje presenciamos uma página da história política do Brasil. Uma página triste, com mazelas e enganações que fez uma parte do povo brasileiro a crer que o jogo sujo do poder tinha nome e sobrenome: Dilma Rouseff.

A verdade é que o jogo sujo da política brasileira tem muitos nomes, CPF’s, CNPJ’s e Offshores fora do Brasil, cujo líder é Eduardo Cunha. Ele capitaneou o impeachment, colocando todo o PMDB e arregimentando outras agremiações pela sua votação, jogando ao mar a capitã do navio, antes que todos os tripulantes piratas fossem descobertos.

O que se viu hoje foi um motim e uma revelação dantesca, que apenas pessoas politizadas e inteligentes podem compreender. A de que os fins justificam os meios, mesmo que estes fins sejam ilegítimos.A de que no jogo do poder, vale tudo, pois o PMDB, há muito tempo almeja a presidência do país, mas curiosamente, todas as vezes que assumiu, não foi pelo voto direto (Sarney em 1985, Itamar Franco em 1992 e agora, Michel Temer).Viu-se revelar a magistratura mais conservadora, reacionária e defensora de interesses da elite dos últimos anos. Seria evidente que uma presidência com filosofia progressista fosse vista pelos congressistas conservadores como um empecilho a seus interesses.

A partir daí a situação piorou. Começou com um racha na eleição para a presidência da Câmara, com a vitória de Cunha. Depois diversas imposições de derrotas ao governo, juntamente com a aprovação de um arremedo de reforma política, que, na prática, não mudava em nada, principalmente no tocante ao financiamento de campanhas e partidos. Em seguida, as pautas-bomba, ataques a direitos, como a liberação total da terceirização, a mudança na demarcação de terras indígenas, a flexibilização (!) do trabalho escravo, o estatuto da família e do nascituro, pautas que agridem os trabalhadores, os direitos humanos e as minorias. Por fim o impeachment, por conta das pedaladas fiscais praticadas no mandato anterior, inclusive com assinatura de ordens de manejo pelo Temer, sem contar que é prática usual em estados e municípios, o que poderia impor um risco jurídico enorme a diversas cidades e estados, se a coerência fosse a tônica na política brasileira, mas como não é…

A maioria dos deputados que disseram sim ao impedimento de Dilma tem nomes e partidos envolvidos na operação Lava Jato.

O alvo dos deputados é outro para forçar a queda da Dilma. É ela quem deu carta branca para a PF e a justiça federal para investigar livremente, e a bomba caiu no colo dos políticos. A maioria dos deputados que disseram sim ao impedimento de Dilma tem nomes e partidos envolvidos na operação Lava Jato. O juiz Sérgio Moro, não sabemos qual a dele, mas o que vejo agora é que ele se enveredou pela vaidade de ser um juiz que liderou a maior operação de investigação contra a corrupção da história do país. Imaginando ser igual a operação Mãos Limpas na Itália, optou por divulgar para a imprensa os resultados das investigações, para que a o Brasil fosse tomado de comoção popular e pressionasse as autoridades a punir e apurar com rigor a roubalheira. Mas a mídia brasileira é enviesada. A própria mídia fez filtragens para destacar os pontos que comprometessem o executivo e faria uma “cobertura soft*” de pontos que poderiam comprometer parlamentares e partidos de oposição. A explicação para isso é que a maioria das emissoras de rádio e televisão possuem controle direto ou indireto de políticos, muitos deles envolvidos nos escândalos.

A mídia mostrou uma cara deturpada do escândalo. Martelavam-se diuturnamente notícias da Lava Jato, relacionando ministros, estatais e deputados com pagamento de propina. A comoção para clamar a queda de Dilma logrou êxito por três fatores:

  • O trato da mídia em tratar a questão da corrupção como problema de governo, e não como um problema de Estado, visto que depois, revelou-se que os esquemas de propina já existiam desde 1986.
  • O preconceito que há sobre a corrupção, por entender que a revelação dos atos ilícitos recai a culpa sobre o governo que está aí, ou seja, que a população pensa que só existe a corrupção quando um escândalo aparece, o que não é verdade, pois falcatruas ocorrem em diversos cantos do país e são poucos os que acabam tornando-se públicos.
  • O anti-esquerdismo, manifestado pelo anti-petismo e o anti-lulismo, onde uma parte da população de classe média alta, passou a hostilizar os partidos de esquerda por conta de sua pauta social de busca de corrigir as desigualdades sociais e políticas do país. Por ser sempre tidos como privilegiados, ao perder o foco governamental, e assim o privilégio de outrora, passou a hostilizar os favoráveis à pauta de esquerda.

Basta observar o perfil dos manifestantes dos protestos pró-impeachment. Eu tive que olhar as pesquisas e fazer algumas especulações a respeito. Pra começar, a faixa etária, muitas pessoas de meia idade e com idade mais avançada. Passa pela classe social, muitos ganham acima de 4000 reais mensais, e passa pela escolaridade, muitos possuem ensino superior completo. Nas áreas de atuação, temos empresários, profissionais liberais e funcionários públicos.

Do outro lado temos os manifestantes contrários ao impeachment. Muitos de classe mais baixa, camponeses, com escolaridade variada entre analfabetos e também graduados. Temos muitos jovens, pessoas de raças negra ou parda, trabalhadores da indústria comércio e serviços, assalariados, com renda bastante variável também.

Isto levou a uma polarização política que pode resultar em um jogo perigoso, em que o congresso nacional com o impeachment, decidiu pagar pra ver.

Os primeiros, chamados de coxinhas, os segundos, de mortadelas (por achar que estão nas manifestações em troca de dinheiro e comida). Isto levou a uma polarização política que pode resultar em um jogo perigoso, em que o congresso nacional com o impeachment, decidiu pagar pra ver.

O futuro

Após a aprovação na câmara, o julgamento do impeachment vai para o senado. Aprovado, a presidente Dilma é afastada por 180 dias e assume o Vice, Michel Temer. Eduardo Cunha assumiria o posto de Temer na linha sucessória. O problema é que Temer, Cunha, seus asseclas do PMDB, PP e outros partidos, estão envolvidos em escândalos de corrupção. E um alerta de um magistrado do Conselho Nacional de Justiça revela a verdade: nos últimos 14 anos, não sofremos nenhuma interferência governamental nas investigações que realizamos. Pode não ser crível, mas uma das consequências de um governo Temer é a interferência nas investigações para abreviar e inocentar os políticos corruptos. Seria igual a anistia de 1979, mas só os militares seriam liberados de todas as culpas. Já se cogita anistiar Cunha de sua cassação por fazer com que o Impeachment fosse aprovado. O que seria de fato, a desmoralização política do Brasil.

(…) empresa não doa, investe, para depois ver seus interesses políticos defendidos pelos políticos que ajudou a eleger.

O aparelhamento político de estatais e ministérios não é apenas moeda de troca para apoio político, mas sim importantes tentáculos de partidos e políticos sem escrúpulos para obtenção de dinheiro ilícito oriundo de propinas, para abastecer candidatos e campanhas eleitorais. A não mudança da forma de financiamento de partidos e campanhas não foi a toa, é pra permitir que empresas continuem investindo em seus candidatos, pois empresa não doa, investe, para depois ver seus interesses políticos defendidos pelos políticos que ajudou a eleger.

Por ter encontrado o bode expiatório, no caso a presidente Dilma, todo noticiário sobre corrupção magicamente cessaria, pois o objetivo dos políticos que controlam a mídia foi alcançado, de manter a corrupção praticada por eles longe dos holofotes da opinião pública.

E para o povo brasileiro, lamentavelmente, nada mudaria, a carga tributária elevada com retorno cada vez mais pífio na qualidade de serviços públicos e acesso a estes. A situação crítica, no entanto, é proposital. Nossa cultura cristã, fatalisticamente, vai querer rogar por heróis, e estes, os políticos, na maior cara de pau, vão se apresentar a nós como exemplos de moralidade e bem comum, prometendo como sempre, mas nunca cumprindo e enriquecendo às nossas custas.

É este o futuro que queremos?

Em tempo: há uma ação nos bastidores para que Dilma reduza seu próprio mandato e convoque eleições para presidente ainda este ano. Seria uma saída honrosa para uma presidente que foi queimada na fogueira política pela corrupta inquisição cristã de Cunha. Mas só considero de valia se deputados e senadores também pudessem ser novamente escolhidos.

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*Cobertura Soft: termo cunhado pelo então diretor de jornalismo da Rede Globo de Televisão, Armando Nogueira, para explicar como foi feita a cobertura jornalística das greves do ABC no final da década de 1970, onde se havia apenas a captura de imagens, sem som ambiente, e com a declaração de vozes patronais e não sindicais. Esta declaração está no documentário “Muito Além do Cidadão Kane (Beyond The Citizen Kane)”produzido pelo Channel 4 da Inglaterra, em 1993.

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Um “rolê” de verdade

Em meio às polêmicas envolvendo os rolezinhos, quero levar à reflexão, como sempre fiz neste blog, sobre a juventude brasileira, e sobre a realidade que nos cercamos.

Eu tenho 32 anos, e o que mais me impressionava na minha infância era a qualidade dos anúncios da propaganda brasileira: comerciais bem acabados, anúncios com belas imagens e textos irresistíveis, jingles que não saíam de nossas cabeças. Mas vivíamos em um momento de crise nos anos 80. A inflação era galopante, empresas quebravam e demitiam em massa, a miséria era visível em todos os lados, o salário era super-baixo, não tínhamos acesso ao consumo, e nós consumíamos na maioria das vezes somente as imagens dos comerciais, e quando comprávamos um produto que era anunciado pela mídia, era para nós uma vitória.

Veio 1994. O plano real deu cabo a mais de uma década de tentativas frustradas de estabilidade econômica. As portas do consumo estavam finalmente abertas para muitos de nós, podíamos ostentar alguns luxos, como televisores, aparelhos de som, telefones celulares, e a oferta de trabalho passou a ser farta. A economia brasileira, apesar de alguns percaustos soprava vigorosamente.

Veio a década de 2000 e os 8 anos de governo Lula deram ao país um status de potência econômica. Enfim a promessa de que o Brasil seria o país do futuro que há tantas décadas se dizia, parecia se concretizar. A nova classe média crescia, pessoas saíam da linha da extrema pobreza e passaram a consumir. O mercado de consumo ficou aquecido, mas alguns resquícios do passado ainda sombreavam nossa realidade.

Lembra dos comerciais que citei no começo deste texto? Com um modelo educacional fragilizado, a mídia fez o papel da escola, e acabou por lançar as pessoas ao consumismo. Novelas, filmes, seriados, comerciais, programas de TV e rádio, nos ‘ensinaram’ que para que você possa ter status, respeito e admiração das pessoas, era preciso que você tenha posses: carro, roupas de grife, aparelhos eletrônicos, etc.

Esta “indução midiática ao consumo”, continuou nas décadas de 90 e 2000 e até hoje isso existe. Lembro de várias modinhas desde os anos 80, como calças US-TOP, tênis Bamba, camisetas Flamel, bermudas de surfista, calças capri e saruel, camisetas gola “V”, e roupas e artigos de marcas como HD, Oakley, Benetton, Hollyster, etc.

O rolezinho é um subproduto, tido como indesejável por pessoas que se consideram da classe dominante, de uma sociedade condicionada ao consumo, mas é, assim como outros movimentos, uma ação de contra-cultura jovem. A nossa juventude é influenciada por muitos modelos, os quais ele capta e interpreta por meio de ações. O rolezinho é uma dessas ações, e precisa ser visto, não como um movimento marginal, mas sim como uma questão a ser refletida de que até que ponto estamos condicionando as pessoas a serem consumistas.

Vemos que todo o processo de formação social e educacional no país é deficiente. Democratizar a mídia seria uma forma de combater em parte a mídia consumista que vemos. Regular a publicidade voltada para crianças além de promover melhorias qualitativas na educação básica, também são importantes ações afirmativas para corrigir a rota. Devemos entender esse movimento, além de conhecer e respeitar, mas mostrar ao jovem outros rolês, novas formas de expressão cultural e social, e combater o consumismo por meio de campanhas, podem ajudar a mostrar ao jovem que hoje está sem norte, uma referência.

Façamos então um grande rolê, não em shoppings, os templos do consumo, mas sim em todos os outros lugares, onde podemos enriquecer nossas mentes, ostentar nossos valores e nos aceitar como realmente somos.

Generalizar: inoportuno mal

Recebi comunicados do Facebook e da Microsoft os quais diziam que os bancos brasileiros não estão mais permitindo transações em reais, pois estas empresas são sediadas no exterior. O que se viu foram reclamações de clientes de cartões de crédito, quanto a transações em reais, com cobrança de impostos de transações feitas no exterior. É parte da cultura do Brasil generalizar para resolver as coisas, porém sabemos que este tipo de “solução” mais atrapalha do que ajuda, e pior, além de escancarar um tolo preconceito, tais atos e opiniões expõe tamanha mediocridade que precisa ser extirpada de nossa cultura comportamental.

Ontem, ao ler os comentários sobre a continuidade da greve dos bancários, li muitas mensagens do tipo “bando de vagabundos”, “se não está satisfeito, procura outro emprego”, “estão reclamando de barriga cheia”, etc. Este é um outro exemplo de generalização tola, e demonstra um total desrespeito e desconhecimento a uma categoria profissional. Estes comentários geralmente vem de pessoas que somente conhecem o banco pelo lado de fora, não entendendo, portanto, o motivo pelo qual os trabalhadores cruzaram os braços. Às vezes soa como inveja comentários assim, lembrando assim a fábula da raposa e as uvas, onde fala-se mal daquilo que almeja sem sucesso.

Vejo generalizações em quase tudo: todo político e juiz de futebol é desonesto, todo líder religioso é pessoa de bem, todo negro é malandro, todo pobre é bandido, toda mulher é frágil, assim como toda mulher que se veste de forma ousada é vulgar ou vadia, todo homem gay é efeminado e não é capaz de desempenhar qualquer atividade tipicamente masculina, a mulher lésbica é masculinizada e também incapaz de desempenhar atividades masculinas (acredite, muitos homens pensam assim), que todo petista é mensaleiro, que todo sindicalista é vendido, e por aí vai. Se você considera, assim como eu, todas essas afirmações que citei como absurdas (mas absurdas mesmo, em qualquer ocasião e individualmente), meus parabéns! É um bom começo de ter um certo discernimento das coisas, e uma postura mais crítica e inteligente sobre os fatos e as pessoas.
Generalizar é pensar e agir de forma preguiçosa e tola. É muito diferente de igualdade a generalização, pois a primeira entende as particularidades de forma inclusiva e a segunda não, colocando todas as situações como regras, sem exceções. Com base no preconceito e na generalização, é simples o julgamento, e quase certo o veredicto errado. Somente com o conhecimento e a abolição dos preconceitos que nos rodeiam, que poderemos dar o tratamento correto aos fatos, e diante desse tratamento, tomar as atitudes corretas e justas a cada caso.

No caso dos cartões, o cliente poderá ter um enorme prejuízo com as transações devido à variação cambial, já que essas transações serão faturadas em reais. Seria mais prudente, em vez disso, criar mecanismos que permitam ao cliente ser notificado que a transação em questão, mesmo cobrada em reais, seria internacional, mas preferiram generalizar.

Reitero a tolice que existe em generalizar, sempre quem sofre é o objeto de tal generalização.

Há certos momentos em que

Há ocasiões em que temos que tomar decisões. Ou simplesmente postergá-las. Há momentos em que mentimos, que falamos a verdade, ou que simplesmente nos calamos, seja com a verdade que se revela ou com mentiras, embora injustas, não temos força ou argumentos necessários para desmascará-las. Há momentos que temos que fazer tudo, ou quase nada, há momentos para agir, ou esperar, para tudo há um momento oportuno e podemos agir certo na hora inoportuna, ou errada, no momento em que o erro não é admitido.

Mas a ação é necessária. Primeiro que ao agirmos, fazemos movimentar o universo que nos rodeia. Depois que outras pessoas ao verem o seu ato, reagem de alguma forma, gerando uma cadeia de ações, que de forma positiva ou negativa causam reflexos em você. O resultado do impacto sempre dependerá da ação executada. Então vemos que fica inverossímil a teoria de que somos incapazes de controlar os nossos destinos, pois por sempre darmos o primeiro passo, tudo se reverte conforme a causa. Colhemos o que plantamos.

Por isso, agir conscientemente e no momento certo, sempre observando os efeitos que seus atos causarão, será sempre considerada uma atitude sábia. Pois aquele que age desta forma, entende que toda ação humana jamais será uma ação pura e simplesmente individual, mas coletiva em maior ou menor grau.

Por isso é que há certos momentos como agora em que é preciso refletir suas atitudes, de modo a corrigir as possíveis falhas e buscar aprimorar seus atos de maneira a afetar positivamente as outras pessoas, sempre.

A república do Avatar

Muito observo na sociedade em geral, nas redes sociais, no trabalho, nos estudos, locais e eventos públicos o comportamento humano e o que influencia tal comportamento. E percebo, com certa resignação, uma aparente superficialidade das pessoas, criando “avatares” delas mesmas, de acordo com a ocasião. Chega a ser paradoxal tais mudanças de comportamento, pois uma das necessidades humanas consiste na aceitação por seus semelhantes. Fica claro que pelas exigências de cada grupo social para ser aceito, um indivíduo precisa se adaptar a essas exigências, mudando sua forma de agir, de vestir, de se comportar, de se expressar e de opinar, para se adequar a essas exigências, e enfim, ser aceito.

Isso funciona como um código, uma senha, uma identidade social, que identifica e associa esse indivíduo a esse grupo. Porém, a necessidade de ser aceito, aliada ao formalismo de uma sociedade que se encontra em uma situação de crise de identidade, por conta de se basear em valores que não são fundamentais, em contraponto a valores que eram tidos como fundamentais e não mais o são, nos impõem uma controversa atitude de “dançar conforme a música” e criar avatares de nós mesmos.

Em empresas tradicionais, faculdades, igrejas, eventos esportivos, grupos de interesses comuns e redes sociais é evidente a multiplexação do caráter de um indivíduo. Para cada local e cada situação, vejo uma mesma pessoa se comportar e até mesmo opinar de uma forma diferente. Vejo pessoas buscando se adaptar a grupos sociais fraudando seu caráter para que esse conceito fictício possa ser aceito nesse grupo. E este é o maior mal do homem, quando vê que a trapaça logra êxito, pois este toma esse procedimento como uma solução oportuna, e passa a adotá-la sistematicamente para ser incluso em outros grupos. Os casos mais críticos são quando esses indivíduos abandonam por completo seu real caráter para dar vida a seus avatares. Por todos esses avatares serem conceitos fictícios e artificiais, seu real conceito se perde, assim como seus valores, fazendo com que esse indivíduo se perca em valores superficiais ou passe a ser um ser alienado, alheio a toda ou boa parte da realidade que o circunda.

Não há como, em um modelo capitalista e consumista, combater ao viciante e perverso comportamento de avatar. Pois a mídia, entidades tradicionais como a igreja, grandes corporações e governos nos fazem engolir seus conceitos, forçando-nos a ser o que eles querem, e não o que realmente somos. Parece ser difícil conciliar este dilema, mas é preciso resistir a criar um avatar, buscando ser nós mesmos em todas as ocasiões, mesmo que se contestem nosso comportamento. O fato é que nossa essência seja preservada, ou estaremos fadados a deixá-la escondida em nossos lares, ou perdida em nossas memórias.

Batalhas de fé

Vejo, por muitas vezes, no facebook, episódios de uma interminável e efusiva discussão entre ateus exaltados e evangélicos fanáticos a respeito da religião. Sou católico, porém crítico de uma fé alienada e estúpida que vejo em muitos locais e também da generalização igualmente estúpida que muitos ateus assim o fazem.

Sempre acreditei que o Homem, enquanto espécie, é capaz de elucidar questões a respeito de suas origens, de suas capacidades, de suas naturezas e de sua convivência em sociedade. A pluralidade da espécie humana é o elemento fundamental e decisivo para a sua evolução diante de outras espécies, pois torna o seu ambiente muito mais dinâmico e disputado, de modo a sempre haver, usando de princípios racionais e naturais de sua espécie, a adaptação a este ambiente. As religiões surgiram como forma de justificar um padrão moral e social, de modo que este padrão se tornasse crível e aceito por seus integrantes. Este padrão é dotado de regras definidas em consonância com normas morais já estabelecidas, convencionadas por grupos econômica e politicamente dominantes, porém atribuídos a divindades, como forma de isentá-los de possíveis responsabilidades.

Fica claro, que quem tem o contrôle sobre a cultura religiosa, tem poder. Fica evidente também que persuadir as pessoas a agir de acordo com uma doutrina de recompensa, mediante cega lealdade, é amplamente vantajoso para quem tem esse contrôle. Pois é parte da fisiologia humana se sacrificar em troca de algo que o recompense. E esta natureza da troca é bastante explorada por alguns grupos religiosos, que mantém uma legião de fiéis, cuja lealdade é tão fanática e cega, que deixam de viver suas vidas para viver uma alienação.

Viver uma religião de maneira crítica e racional é perfeitamente possível, mas tiraria dos líderes religiosos o poder e a influência sobre seus fiéis. Por isso, corrompem doutrinas, criam preconceitos, implantam moralismos, inventam inimigos fictícios, para que se crie uma “zona de perigo” em torno deles, das quais os fiéis não podem escapar, estando eles subjugados a seus interesses e vontades.

E neste cenário surge a figura do fanático. Este, desprovido de senso crítico, característica esta inibida por uma doutrinação cultural contínua de destruição deste senso, ou ainda por uma capacidade intelectual reduzida, torna-se um personagem importante para a barbarização da fé, tornando-o também uma espécie de soldado que defende, ataca e contradiz os próprios princípios religiosos que alega defender. Importante salientar que apenas uma pequena parcela dos que possuem uma crença religiosa são, de fato, fanáticos. Mas a influência em uma comunidade religiosa quando este fanático é o líder, pode ser desastrosa. O caso da seita de Jin Jones poderia ser citado como exemplo de um líder fanático que levou sua seita a um ritual de suicídio coletivo, em 1978.

Mas geralmente, o líder religioso não é fanático, mas sorrateiramente passa essa impressão a seus seguidores, pois esta crença deve aparecer crível para aqueles que o seguem. Isto pode ser notado nas explanações carregadas de hesitação e emoções melancólicas, de forma teatral, como se a afirmação da fé fosse um show, um espetáculo dramático. E o fanático, não apenas endossa esse discurso, como também o reproduz em palavras e ações que o justifiquem.

Em suma, o que parecia ser um remédio para civilizar sociedades antigas, passou a ser um veneno para uma sociedade de paz, hoje. A religião teve seu papel histórico de grande influência, permitindo o surgimento e a expansão de grandes sociedades humanas que hoje coabitam o planeta, e possuem o domínio político, cultural e econômico. Entretanto, ainda se insiste em existir a ideia da cultura dominante e de sobrevivência, para promover uma princípio de igualdade imposta, sem nenhuma preocupação com as individualidades das pessoas. Esta característica é excludente e agressiva, não alinhada a princípios humanos pacíficos.

Surgiram movimentos laicos e ateus que estão se contrapondo aos movimentos religiosos fundamentalistas. Porém estes movimentos repetem os mesmos erros dos fundamentalistas, procurando de forma agressiva e até mesmo ofensiva, promover o ateísmo e demonizar a religião. Costumam relacionar personagens torpes de nossa história, como Adolf Hitler, ao cristianismo e querem mostrar o lado negro da religião sobre os mais diversos aspectos, de forma generalizada. As falhas do passado e o uso da religião como ferramenta de obtenção de poder contribuem para que os fatos apresentados sejam tido como verídicos, mas é preciso estabelecer uma conduta mais aberta ao apoio do que a rejeição. A reação dos fanáticos é um forte indício de que as ações dos ateus e laicos está produzindo repercussão, mas não é pertinente o rebaixamento a um mesmo nível de intolerância.

Uma grande falha da humanidade é entender que, por todos os seres humanos serem semelhantes sob o ponto de vista físico e fisiológico, deve-se promover uma imposição total e incondicional de igualdade de atitudes e filosofias, para que se estabeleça uma relação de igualdade. O ser humano é o único ser vivo que distingue e rejeita seus semelhantes por condições alheias a suas capacidades e características físicas e fisiológicas. Quando o Homem aprender a tratar como igual, seu semelhante, sem observar qual sua orientação política, social, sexual, cultural ou acadêmica, estaremos estabelecendo uma nova sociedade onde todos terão oportunidades e onde todos terão a plena consciência de uma cultura pacífica e de unidade. Uma sociedade de fato e de direito.

Que seja o primeiro e único

Juro por Deus que não queria escrever uma letra que seja sobre o BBB. No entanto, dadas às circunstâncias e à conjuntura sócio-política do Brasil neste dado momento, este assunto vem a ser a temática deste artigo.

Num momento em que pessoas se embriagam ao volante e pouco se importam, ou que movimentam céus e terra contra a agressão a uma cachorrinha e no entanto, veem o drama de uma senhora agredida por um agiota ou ainda o trágico cenário de definhação humana corriqueiramente vista nos becos da Cracolândia com cara de paisagem, o Big Brother Brasil é uma amostra da mais dantesca imagem do que se tornou a cultura, o comportamento e a mentalidade do povo brasileiro.

O caso do suposto estupro cometido por um dos participantes a uma colega de confinamento, que estaria bêbada e inconsciente levantou uma série de reações que escancaram as mais torpes e estarrecedoras cicatrizes da sociedade brasileira. Cicatrizes essas que impedem de nos tornar civilizados, empurrando-nos para a barbárie.

A primeira cicatriz é a do moralismo. Um homem não pode se aproveitar de uma donzela, mesmo bêbada, isto seria um estupro, um atentado à moral e aos bons costumes, como se nosso país fosse um povo de puritanos, que se julgam castos e perfeitos a ponto de julgar os atos alheios e ver neles toda a sorte de maldades.

A segunda cicatriz é a do machismo. Ela se ofereceu! Ficou rebolando essa bunda carnuda na frente do cara e ele não resistiu! Fez seu papel de homem que é o do predador sexual, viril, forte, que não deixa escapar as oportunidades, mesmo que de forma malandra e covarde! Veja, caro machão, se estivesse no lugar dele não faria a mesma coisa? E qual o papel da mulher neste caso? Apenas de objeto sexual? De  satisfazer ao homem sexualmente, mesmo que não sinta prazer, que não goze, que tenha que sofrer? A maioria dos homens brasileiros foram condicionados a agir dessa forma. Não à toa existe uma velada homofobia que diz que um homem que não faz seu papel de homem, simplesmente não é homem. E a mulher que faz papel de homem é fetiche, desde que não venha “invadir” o território masculino. Já vi muitas lésbicas apanharem de homens por que não admitiam perder suas mulheres para elas, pois se acham acima dos demais, se acham os donos, os chefes, os maiorais.

A terceira cicatriz é a do racismo. EU DUVIDO QUE SE O ENVOLVIDO FOSSE BRANCO TERIA TRATAMENTO IGUAL! (coloco em letras garrafais isso) Se fosse o Alemão que ganhou um outro BBB diria que ele cumpriu o seu papel de macho. Já para esse rapaz, o Daniel, é estuprador, maníaco, bandido. Nunca um negro é visto com bons olhos pela sociedade e também admito que julguei muitas vezes o livro pela capa. As raízes do preconceito imperam e nos impedem de estabelecer no próximo uma relação de confiança. Sempre vemos o nosso compatriota com um olhar malicioso que aumenta conforme escurece a cor de sua pele.

A quarta cicatriz, sendo a mais forte e aberta, é a da hipocrisia. Ela entrelaça todas as demais cicatrizes expondo o nosso vazio de caráter. Uma regra só é válida e aceita, quando esta não nos prejudica. É vergonhoso e inadmissível a admissão da falha, do erro. Acredita-se que Deus é brasileiro e por sermos filhos dessa terra teríamos que ser perfeitos, a nosso modo. Vemos a hipocrisia em todos os lugares. Quantas vezes vimos evangélicos pedindo clemência a Deus nos cultos, mas quando saem de suas igrejas ostentam luxo, falam mal da vida alheia, como se o Deus deles somente o vigiassem dentro de seus templos? Quantas vezes vimos pais e mães dizerem que não tem preconceito contra homossexuais, mas que agridem e expulsam de casa os próprios filhos, quando descobrem que são? Quantas pessoas dizem ser contra a fome e a miséria e no entanto, viram as costas para quem precisa de ajuda? Esse mundo fantasioso de faz de conta, esse formalismo que toma conta da sociedade tornando-a falsa, superficial, quase ficcional nos rumina e nos cospe para uma realidade que  custamos a crer: de que nossos problemas estão diante de nossos olhos e não podemos mais fugir deles ou esconde-los.

Muitos dos nossos problemas são heranças do nosso passado. A abolição da escravatura, a independência do Brasil, a proclamação da república, a república velha, o estado novo, a ditadura militar, a vinda da corte portuguesa, o descobrimento, as revoltas duramente reprimidas e outros fatos históricos, se analisados friamente, nos evidenciam os impactos causados na cultura ideológica de nosso povo.

O momento é ideal para um basta. Uma nova consciência coletiva deve surgir para combater a toda essa barbárie que toma conta de nossa sociedade. Um olhar crítico se faz necessário em vez de aceitar tudo o que nos é oferecido.