Marielle e Madalena

André Arruda fala sobre a morte de Marielle, relacionando com Maria Madalena.

Uma notícia me pungiu de dor. Marielle foi morta. Uma mulher de fibra, de favela, do povo do Rio, uma lutadora guerreira. Isso me lembrou de Madalena.

Madalena, foi acusada de adultério. Estava prestes a ser condenada, mas um profeta de Nazaré, mostrou a aqueles que a perseguiam que todos somos iguais em virtudes em defeitos. E que o ódio os condenavam. Isso me relembrou Marielle.

Marielle ousou defender o povo humilde, criticou a intervenção de segurança do estado do Rio, denunciou a violência policial, foi a antítese do senso comum do povo da periferia e da favela: formada na universidade, não se dobrou ao crime organizado, nem se contentou em ser lacaia de uma sociedade brasileira patriarcal, elitista e excludente. Isso me fez lembrar novamente de Madalena.

Madalena teve sua história amputada pelo cristianismo. Sua história não se resumiu a apenas um episódio. Há evangelhos apócrifos que descrevem Madalena como apóstola. Uma liderança feminina e lutadora que não seria admitida em um universo em que o homem sempre foi líder. Isso me lembrou Marielle.

Pois querem covardemente amputar sua história, com omissões e mentiras. Omitem que ela tem uma companheira, e que é militante feminista e LGBT. E mentem quando dizem que ela tinha relação com o tráfico, que foi eleita pelo comando vermelho, que foi mãe adolescente.

As pedras de ódio que não atingiram Madalena foram os tiros que atingiram e mataram Marielle.

O ódio e a insanidade são as regras invisíveis que regem nossa sociedade. Atos covardes praticados de humanos contra humanos por egoísmo, vaidade e insensatez.

Madalena representava tudo que naquela época, era a mudança necessária que rejeitavam.

Marielle representa tudo o que hoje precisamos mudar para que possamos nos ver como iguais.

Poderíamos ser todos Madalenas e não fomos. A história nos deu outra oportunidade. Sejamos todas as pessoas Marielles.

Marielle vive!

Marielle, presente!

A lógica do árbitro ladrão

O ser humano sempre é capaz de criar lógicas a seu bel prazer. Não precisam que elas sejam verdadeiras, bastam que sejam verossímeis. Inclusive criam-se lógicas irreais, mas verossímeis para acobertar outras, reais, porém prejudiciais a dados interesses. O domínio da verdade angaria poder e isso faz com que mesmo que tal lógica exposta como verdadeira, não o seja de fato, quem a profere ganha poder se for aceita por outras pessoas. Poder, verdade e crença possuem laços íntimos que influenciam as ações humanas.

Falarei sobre a lógica do juiz de futebol ladrão. Se a arbitragem comete um erro que prejudica seu time, logo, esse árbitro favoreceu intencionalmente o adversário. Partindo dessa lógica, o juiz é ladrão. Houve um roubo, um acerto, uma corrupção, uma mala preta para que tal resultado se confirmasse à revelia de nossa vontade apaixonada e cega de torcedor de futebol. E pela cegueira histérica que a que cometemos diante da desilusão, a caixa de Pandora do ódio e da mentira se abre para tecer teorias que confirmem a incredulidade de que recusamos a aceitar. A cultura do Juiz Ladrão faz parte do mundo do futebol, mas acoberta algo mais sério. Centraliza a interpretação da regra em torno de uma, ou três pessoas (com os árbitros de linha de fundo, seriam 5, mas os resultados não tem sido tão efetivos), além de, no Brasil, a arbitragem esportiva não ser profissional. O árbitro profissional de futebol é uma das soluções que podem reduzir o erro, pois o árbitro é preparado e pago para isso. Mas está muito além da questão técnica ou simplista a solução para acabar com o “favorecimento da arbitragem”, pois sabemos que há quem se beneficie do erro.

Imagine quantos jornais deixarão de ser vendidos, quantos pontos de audiência deixarão de ser alcançados, quantos cliques não serão feitos e quanta repercussão deixará de existir sem a polêmica arbitragem das noites de quarta ou das tardes de domingo.

O mundo é movido por conflitos, e no futebol, como qualquer ação humana, não é diferente. O ponto de vista se aguça quando a dúvida, intencional ou não, se apresenta. A ausência de dúvidas elimina a subjetividade e com isso, o conflito se desfaz. Liderar uma posição de conflito é cômodo, pois é possível “inventar poder” influenciando pessoas a agirem de maneira. O homem é impelido pela ação e pela competição, e criar um ambiente de competição ou de conflito é garantir a quem criou esse ambiente poder e influência. Fica evidente que quem implanta polêmicas angaria poder, ou busca também o concentrar em um determinado ponto.

Clubes, federações e CBF, em troca de contratos de transmissão com a mídia, mantém um status quo no futebol brasileiro para que mantenha um nível de atratividade e influência, como parte de uma contemporânea política de pão e circo, porém sem o pão.

Enquanto isso, se inventa uma visão estereotipada do futebol brasileiro com heróis e vilãos. E na categoria de vilãos, está o Juiz Ladrão.

Conheci pessoalmente o árbitro tido como um dos árbitros mais envolvidos em polêmicas no futebol brasileiro. Thiago Peixoto era um jovem professor de academia, que, por acaso, descobri que também era árbitro de futebol. Um professor atencioso, muito focado no trabalho e muito boa pessoa. A última vez que ouvi falar dele, foi no último final de semana, quando, no clássico entre Náutico e Santa Cruz no Recife, se envolveu em outra polêmica e chegou a ser agredido por um jogador do Santa Cruz, que deu uma cabeçada(Fonte: https://m.futebolinterior.com.br/futebol/Brasileiro/Serie-B/2017/noticias/2017-11/arbitro-que-pegou-gancho-em-sp-leva-cabecada-no-classico-de-recife).

Aos olhos da imprensa que gosta de polemizar, Thiago é um Juiz Ladrão. Aos olhos éticos, pode ser tido como um árbitro instável e que comete erros. Erros como muitos árbitros cometem, como muitos jogadores cometem e como todos nós, seres humanos, cometemos.

O erro é algo inerente ao comportamento humano. Não tolerá-lo é uma atitude que pode fazer exatamente o oposto do que se propõe: eliminar ou anular os efeitos do erro. Thiago é uma vítima da estigma que o persegue: de que todo árbitro de futebol é ladrão.

O primeiro passo para começar a atacar a cultura do Juiz Ladrão é tratar o assunto como erro, e não como favorecimento, apesar de que o futebol faz parte de um torpe universo de casas de apostas (manipulação de resultados), lavagem de dinheiro (crime organizado investindo em futebol), fraude fiscal, evasão de divisas, sonegação fiscal (venda de atletas com ocultação de valores), corrupção (propinas e superfaturamento em obras esportivas, programas e eventos), uso político (alienação da população, favorecimento de clubes, renúncia fiscal e lobby), e muito mais em um verdadeiro jogo sujo.

Declarações como a do diretor do Palmeiras frente aos erros da arbitragem cometidos no clássico contra o Corinthians deveriam ser alvo de punição, pois inflamam a sua torcida a tensionar a rivalidade e desviar o foco dela contra as críticas contra os jogadores que falharam na partida e também foram responsáveis pela derrota do time do Palmeiras.

São os manipuladores e mafiosos do mundo da bola os verdadeiros ladrões e que fazem o futebol se tornar uma amostra de quão injusto é esse mundo. Mas para não ficar evidente, precisavam de um bode expiatório, um culpado.

Sobrou para o juiz.

Extraído de: https://kazzttor.blogspot.com.br/2017/11/a-logica-do-arbitro-ladrao.html

17 de abril de 2016, 23:07: um atentado contra a democracia brasileira

André Arruda comenta sobre a votação do impeachment de Dilma Roussef na câmara e seus desdobramentos.

A verdade é que o jogo sujo da política brasileira tem muitos nomes, CPF’s, CNPJ’s e Offshores fora do Brasil, cujo líder é Eduardo Cunha.

Hoje presenciamos uma página da história política do Brasil. Uma página triste, com mazelas e enganações que fez uma parte do povo brasileiro a crer que o jogo sujo do poder tinha nome e sobrenome: Dilma Rouseff.

A verdade é que o jogo sujo da política brasileira tem muitos nomes, CPF’s, CNPJ’s e Offshores fora do Brasil, cujo líder é Eduardo Cunha. Ele capitaneou o impeachment, colocando todo o PMDB e arregimentando outras agremiações pela sua votação, jogando ao mar a capitã do navio, antes que todos os tripulantes piratas fossem descobertos.

O que se viu hoje foi um motim e uma revelação dantesca, que apenas pessoas politizadas e inteligentes podem compreender. A de que os fins justificam os meios, mesmo que estes fins sejam ilegítimos.A de que no jogo do poder, vale tudo, pois o PMDB, há muito tempo almeja a presidência do país, mas curiosamente, todas as vezes que assumiu, não foi pelo voto direto (Sarney em 1985, Itamar Franco em 1992 e agora, Michel Temer).Viu-se revelar a magistratura mais conservadora, reacionária e defensora de interesses da elite dos últimos anos. Seria evidente que uma presidência com filosofia progressista fosse vista pelos congressistas conservadores como um empecilho a seus interesses.

A partir daí a situação piorou. Começou com um racha na eleição para a presidência da Câmara, com a vitória de Cunha. Depois diversas imposições de derrotas ao governo, juntamente com a aprovação de um arremedo de reforma política, que, na prática, não mudava em nada, principalmente no tocante ao financiamento de campanhas e partidos. Em seguida, as pautas-bomba, ataques a direitos, como a liberação total da terceirização, a mudança na demarcação de terras indígenas, a flexibilização (!) do trabalho escravo, o estatuto da família e do nascituro, pautas que agridem os trabalhadores, os direitos humanos e as minorias. Por fim o impeachment, por conta das pedaladas fiscais praticadas no mandato anterior, inclusive com assinatura de ordens de manejo pelo Temer, sem contar que é prática usual em estados e municípios, o que poderia impor um risco jurídico enorme a diversas cidades e estados, se a coerência fosse a tônica na política brasileira, mas como não é…

A maioria dos deputados que disseram sim ao impedimento de Dilma tem nomes e partidos envolvidos na operação Lava Jato.

O alvo dos deputados é outro para forçar a queda da Dilma. É ela quem deu carta branca para a PF e a justiça federal para investigar livremente, e a bomba caiu no colo dos políticos. A maioria dos deputados que disseram sim ao impedimento de Dilma tem nomes e partidos envolvidos na operação Lava Jato. O juiz Sérgio Moro, não sabemos qual a dele, mas o que vejo agora é que ele se enveredou pela vaidade de ser um juiz que liderou a maior operação de investigação contra a corrupção da história do país. Imaginando ser igual a operação Mãos Limpas na Itália, optou por divulgar para a imprensa os resultados das investigações, para que a o Brasil fosse tomado de comoção popular e pressionasse as autoridades a punir e apurar com rigor a roubalheira. Mas a mídia brasileira é enviesada. A própria mídia fez filtragens para destacar os pontos que comprometessem o executivo e faria uma “cobertura soft*” de pontos que poderiam comprometer parlamentares e partidos de oposição. A explicação para isso é que a maioria das emissoras de rádio e televisão possuem controle direto ou indireto de políticos, muitos deles envolvidos nos escândalos.

A mídia mostrou uma cara deturpada do escândalo. Martelavam-se diuturnamente notícias da Lava Jato, relacionando ministros, estatais e deputados com pagamento de propina. A comoção para clamar a queda de Dilma logrou êxito por três fatores:

  • O trato da mídia em tratar a questão da corrupção como problema de governo, e não como um problema de Estado, visto que depois, revelou-se que os esquemas de propina já existiam desde 1986.
  • O preconceito que há sobre a corrupção, por entender que a revelação dos atos ilícitos recai a culpa sobre o governo que está aí, ou seja, que a população pensa que só existe a corrupção quando um escândalo aparece, o que não é verdade, pois falcatruas ocorrem em diversos cantos do país e são poucos os que acabam tornando-se públicos.
  • O anti-esquerdismo, manifestado pelo anti-petismo e o anti-lulismo, onde uma parte da população de classe média alta, passou a hostilizar os partidos de esquerda por conta de sua pauta social de busca de corrigir as desigualdades sociais e políticas do país. Por ser sempre tidos como privilegiados, ao perder o foco governamental, e assim o privilégio de outrora, passou a hostilizar os favoráveis à pauta de esquerda.

Basta observar o perfil dos manifestantes dos protestos pró-impeachment. Eu tive que olhar as pesquisas e fazer algumas especulações a respeito. Pra começar, a faixa etária, muitas pessoas de meia idade e com idade mais avançada. Passa pela classe social, muitos ganham acima de 4000 reais mensais, e passa pela escolaridade, muitos possuem ensino superior completo. Nas áreas de atuação, temos empresários, profissionais liberais e funcionários públicos.

Do outro lado temos os manifestantes contrários ao impeachment. Muitos de classe mais baixa, camponeses, com escolaridade variada entre analfabetos e também graduados. Temos muitos jovens, pessoas de raças negra ou parda, trabalhadores da indústria comércio e serviços, assalariados, com renda bastante variável também.

Isto levou a uma polarização política que pode resultar em um jogo perigoso, em que o congresso nacional com o impeachment, decidiu pagar pra ver.

Os primeiros, chamados de coxinhas, os segundos, de mortadelas (por achar que estão nas manifestações em troca de dinheiro e comida). Isto levou a uma polarização política que pode resultar em um jogo perigoso, em que o congresso nacional com o impeachment, decidiu pagar pra ver.

O futuro

Após a aprovação na câmara, o julgamento do impeachment vai para o senado. Aprovado, a presidente Dilma é afastada por 180 dias e assume o Vice, Michel Temer. Eduardo Cunha assumiria o posto de Temer na linha sucessória. O problema é que Temer, Cunha, seus asseclas do PMDB, PP e outros partidos, estão envolvidos em escândalos de corrupção. E um alerta de um magistrado do Conselho Nacional de Justiça revela a verdade: nos últimos 14 anos, não sofremos nenhuma interferência governamental nas investigações que realizamos. Pode não ser crível, mas uma das consequências de um governo Temer é a interferência nas investigações para abreviar e inocentar os políticos corruptos. Seria igual a anistia de 1979, mas só os militares seriam liberados de todas as culpas. Já se cogita anistiar Cunha de sua cassação por fazer com que o Impeachment fosse aprovado. O que seria de fato, a desmoralização política do Brasil.

(…) empresa não doa, investe, para depois ver seus interesses políticos defendidos pelos políticos que ajudou a eleger.

O aparelhamento político de estatais e ministérios não é apenas moeda de troca para apoio político, mas sim importantes tentáculos de partidos e políticos sem escrúpulos para obtenção de dinheiro ilícito oriundo de propinas, para abastecer candidatos e campanhas eleitorais. A não mudança da forma de financiamento de partidos e campanhas não foi a toa, é pra permitir que empresas continuem investindo em seus candidatos, pois empresa não doa, investe, para depois ver seus interesses políticos defendidos pelos políticos que ajudou a eleger.

Por ter encontrado o bode expiatório, no caso a presidente Dilma, todo noticiário sobre corrupção magicamente cessaria, pois o objetivo dos políticos que controlam a mídia foi alcançado, de manter a corrupção praticada por eles longe dos holofotes da opinião pública.

E para o povo brasileiro, lamentavelmente, nada mudaria, a carga tributária elevada com retorno cada vez mais pífio na qualidade de serviços públicos e acesso a estes. A situação crítica, no entanto, é proposital. Nossa cultura cristã, fatalisticamente, vai querer rogar por heróis, e estes, os políticos, na maior cara de pau, vão se apresentar a nós como exemplos de moralidade e bem comum, prometendo como sempre, mas nunca cumprindo e enriquecendo às nossas custas.

É este o futuro que queremos?

Em tempo: há uma ação nos bastidores para que Dilma reduza seu próprio mandato e convoque eleições para presidente ainda este ano. Seria uma saída honrosa para uma presidente que foi queimada na fogueira política pela corrupta inquisição cristã de Cunha. Mas só considero de valia se deputados e senadores também pudessem ser novamente escolhidos.

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*Cobertura Soft: termo cunhado pelo então diretor de jornalismo da Rede Globo de Televisão, Armando Nogueira, para explicar como foi feita a cobertura jornalística das greves do ABC no final da década de 1970, onde se havia apenas a captura de imagens, sem som ambiente, e com a declaração de vozes patronais e não sindicais. Esta declaração está no documentário “Muito Além do Cidadão Kane (Beyond The Citizen Kane)”produzido pelo Channel 4 da Inglaterra, em 1993.

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Um “rolê” de verdade

Em meio às polêmicas envolvendo os rolezinhos, quero levar à reflexão, como sempre fiz neste blog, sobre a juventude brasileira, e sobre a realidade que nos cercamos.

Eu tenho 32 anos, e o que mais me impressionava na minha infância era a qualidade dos anúncios da propaganda brasileira: comerciais bem acabados, anúncios com belas imagens e textos irresistíveis, jingles que não saíam de nossas cabeças. Mas vivíamos em um momento de crise nos anos 80. A inflação era galopante, empresas quebravam e demitiam em massa, a miséria era visível em todos os lados, o salário era super-baixo, não tínhamos acesso ao consumo, e nós consumíamos na maioria das vezes somente as imagens dos comerciais, e quando comprávamos um produto que era anunciado pela mídia, era para nós uma vitória.

Veio 1994. O plano real deu cabo a mais de uma década de tentativas frustradas de estabilidade econômica. As portas do consumo estavam finalmente abertas para muitos de nós, podíamos ostentar alguns luxos, como televisores, aparelhos de som, telefones celulares, e a oferta de trabalho passou a ser farta. A economia brasileira, apesar de alguns percaustos soprava vigorosamente.

Veio a década de 2000 e os 8 anos de governo Lula deram ao país um status de potência econômica. Enfim a promessa de que o Brasil seria o país do futuro que há tantas décadas se dizia, parecia se concretizar. A nova classe média crescia, pessoas saíam da linha da extrema pobreza e passaram a consumir. O mercado de consumo ficou aquecido, mas alguns resquícios do passado ainda sombreavam nossa realidade.

Lembra dos comerciais que citei no começo deste texto? Com um modelo educacional fragilizado, a mídia fez o papel da escola, e acabou por lançar as pessoas ao consumismo. Novelas, filmes, seriados, comerciais, programas de TV e rádio, nos ‘ensinaram’ que para que você possa ter status, respeito e admiração das pessoas, era preciso que você tenha posses: carro, roupas de grife, aparelhos eletrônicos, etc.

Esta “indução midiática ao consumo”, continuou nas décadas de 90 e 2000 e até hoje isso existe. Lembro de várias modinhas desde os anos 80, como calças US-TOP, tênis Bamba, camisetas Flamel, bermudas de surfista, calças capri e saruel, camisetas gola “V”, e roupas e artigos de marcas como HD, Oakley, Benetton, Hollyster, etc.

O rolezinho é um subproduto, tido como indesejável por pessoas que se consideram da classe dominante, de uma sociedade condicionada ao consumo, mas é, assim como outros movimentos, uma ação de contra-cultura jovem. A nossa juventude é influenciada por muitos modelos, os quais ele capta e interpreta por meio de ações. O rolezinho é uma dessas ações, e precisa ser visto, não como um movimento marginal, mas sim como uma questão a ser refletida de que até que ponto estamos condicionando as pessoas a serem consumistas.

Vemos que todo o processo de formação social e educacional no país é deficiente. Democratizar a mídia seria uma forma de combater em parte a mídia consumista que vemos. Regular a publicidade voltada para crianças além de promover melhorias qualitativas na educação básica, também são importantes ações afirmativas para corrigir a rota. Devemos entender esse movimento, além de conhecer e respeitar, mas mostrar ao jovem outros rolês, novas formas de expressão cultural e social, e combater o consumismo por meio de campanhas, podem ajudar a mostrar ao jovem que hoje está sem norte, uma referência.

Façamos então um grande rolê, não em shoppings, os templos do consumo, mas sim em todos os outros lugares, onde podemos enriquecer nossas mentes, ostentar nossos valores e nos aceitar como realmente somos.

Generalizar: inoportuno mal

Recebi comunicados do Facebook e da Microsoft os quais diziam que os bancos brasileiros não estão mais permitindo transações em reais, pois estas empresas são sediadas no exterior. O que se viu foram reclamações de clientes de cartões de crédito, quanto a transações em reais, com cobrança de impostos de transações feitas no exterior. É parte da cultura do Brasil generalizar para resolver as coisas, porém sabemos que este tipo de “solução” mais atrapalha do que ajuda, e pior, além de escancarar um tolo preconceito, tais atos e opiniões expõe tamanha mediocridade que precisa ser extirpada de nossa cultura comportamental.

Ontem, ao ler os comentários sobre a continuidade da greve dos bancários, li muitas mensagens do tipo “bando de vagabundos”, “se não está satisfeito, procura outro emprego”, “estão reclamando de barriga cheia”, etc. Este é um outro exemplo de generalização tola, e demonstra um total desrespeito e desconhecimento a uma categoria profissional. Estes comentários geralmente vem de pessoas que somente conhecem o banco pelo lado de fora, não entendendo, portanto, o motivo pelo qual os trabalhadores cruzaram os braços. Às vezes soa como inveja comentários assim, lembrando assim a fábula da raposa e as uvas, onde fala-se mal daquilo que almeja sem sucesso.

Vejo generalizações em quase tudo: todo político e juiz de futebol é desonesto, todo líder religioso é pessoa de bem, todo negro é malandro, todo pobre é bandido, toda mulher é frágil, assim como toda mulher que se veste de forma ousada é vulgar ou vadia, todo homem gay é efeminado e não é capaz de desempenhar qualquer atividade tipicamente masculina, a mulher lésbica é masculinizada e também incapaz de desempenhar atividades masculinas (acredite, muitos homens pensam assim), que todo petista é mensaleiro, que todo sindicalista é vendido, e por aí vai. Se você considera, assim como eu, todas essas afirmações que citei como absurdas (mas absurdas mesmo, em qualquer ocasião e individualmente), meus parabéns! É um bom começo de ter um certo discernimento das coisas, e uma postura mais crítica e inteligente sobre os fatos e as pessoas.
Generalizar é pensar e agir de forma preguiçosa e tola. É muito diferente de igualdade a generalização, pois a primeira entende as particularidades de forma inclusiva e a segunda não, colocando todas as situações como regras, sem exceções. Com base no preconceito e na generalização, é simples o julgamento, e quase certo o veredicto errado. Somente com o conhecimento e a abolição dos preconceitos que nos rodeiam, que poderemos dar o tratamento correto aos fatos, e diante desse tratamento, tomar as atitudes corretas e justas a cada caso.

No caso dos cartões, o cliente poderá ter um enorme prejuízo com as transações devido à variação cambial, já que essas transações serão faturadas em reais. Seria mais prudente, em vez disso, criar mecanismos que permitam ao cliente ser notificado que a transação em questão, mesmo cobrada em reais, seria internacional, mas preferiram generalizar.

Reitero a tolice que existe em generalizar, sempre quem sofre é o objeto de tal generalização.

Há certos momentos em que

Há ocasiões em que temos que tomar decisões. Ou simplesmente postergá-las. Há momentos em que mentimos, que falamos a verdade, ou que simplesmente nos calamos, seja com a verdade que se revela ou com mentiras, embora injustas, não temos força ou argumentos necessários para desmascará-las. Há momentos que temos que fazer tudo, ou quase nada, há momentos para agir, ou esperar, para tudo há um momento oportuno e podemos agir certo na hora inoportuna, ou errada, no momento em que o erro não é admitido.

Mas a ação é necessária. Primeiro que ao agirmos, fazemos movimentar o universo que nos rodeia. Depois que outras pessoas ao verem o seu ato, reagem de alguma forma, gerando uma cadeia de ações, que de forma positiva ou negativa causam reflexos em você. O resultado do impacto sempre dependerá da ação executada. Então vemos que fica inverossímil a teoria de que somos incapazes de controlar os nossos destinos, pois por sempre darmos o primeiro passo, tudo se reverte conforme a causa. Colhemos o que plantamos.

Por isso, agir conscientemente e no momento certo, sempre observando os efeitos que seus atos causarão, será sempre considerada uma atitude sábia. Pois aquele que age desta forma, entende que toda ação humana jamais será uma ação pura e simplesmente individual, mas coletiva em maior ou menor grau.

Por isso é que há certos momentos como agora em que é preciso refletir suas atitudes, de modo a corrigir as possíveis falhas e buscar aprimorar seus atos de maneira a afetar positivamente as outras pessoas, sempre.

A república do Avatar

Muito observo na sociedade em geral, nas redes sociais, no trabalho, nos estudos, locais e eventos públicos o comportamento humano e o que influencia tal comportamento. E percebo, com certa resignação, uma aparente superficialidade das pessoas, criando “avatares” delas mesmas, de acordo com a ocasião. Chega a ser paradoxal tais mudanças de comportamento, pois uma das necessidades humanas consiste na aceitação por seus semelhantes. Fica claro que pelas exigências de cada grupo social para ser aceito, um indivíduo precisa se adaptar a essas exigências, mudando sua forma de agir, de vestir, de se comportar, de se expressar e de opinar, para se adequar a essas exigências, e enfim, ser aceito.

Isso funciona como um código, uma senha, uma identidade social, que identifica e associa esse indivíduo a esse grupo. Porém, a necessidade de ser aceito, aliada ao formalismo de uma sociedade que se encontra em uma situação de crise de identidade, por conta de se basear em valores que não são fundamentais, em contraponto a valores que eram tidos como fundamentais e não mais o são, nos impõem uma controversa atitude de “dançar conforme a música” e criar avatares de nós mesmos.

Em empresas tradicionais, faculdades, igrejas, eventos esportivos, grupos de interesses comuns e redes sociais é evidente a multiplexação do caráter de um indivíduo. Para cada local e cada situação, vejo uma mesma pessoa se comportar e até mesmo opinar de uma forma diferente. Vejo pessoas buscando se adaptar a grupos sociais fraudando seu caráter para que esse conceito fictício possa ser aceito nesse grupo. E este é o maior mal do homem, quando vê que a trapaça logra êxito, pois este toma esse procedimento como uma solução oportuna, e passa a adotá-la sistematicamente para ser incluso em outros grupos. Os casos mais críticos são quando esses indivíduos abandonam por completo seu real caráter para dar vida a seus avatares. Por todos esses avatares serem conceitos fictícios e artificiais, seu real conceito se perde, assim como seus valores, fazendo com que esse indivíduo se perca em valores superficiais ou passe a ser um ser alienado, alheio a toda ou boa parte da realidade que o circunda.

Não há como, em um modelo capitalista e consumista, combater ao viciante e perverso comportamento de avatar. Pois a mídia, entidades tradicionais como a igreja, grandes corporações e governos nos fazem engolir seus conceitos, forçando-nos a ser o que eles querem, e não o que realmente somos. Parece ser difícil conciliar este dilema, mas é preciso resistir a criar um avatar, buscando ser nós mesmos em todas as ocasiões, mesmo que se contestem nosso comportamento. O fato é que nossa essência seja preservada, ou estaremos fadados a deixá-la escondida em nossos lares, ou perdida em nossas memórias.