Hannah encarnado

André Arruda tem uma confissão a fazer que é estarrecedora.

Sabe aqueles dias em que é preciso um desabafo e se vê obrigado a calar-se pois sua revelação é demasiadamente perturbadora e comprometedora? Era o dilema de Hannah, personagem do badalado seriado da Netflix, Os treze porquês. Ela presenciou um estupro e foi vítima do mesmo agressor do estupro que testemunhou. Ser testemunha e vítima de uma violência é duplamente atormentador, principalmente quando o agressor está em nosso meio, e não pode denunciar por medo de represálias ou danos à sua reputação.

Senti essa experiência na carne. Encarnei Hannah​ por uma noite, testemunhando e sofrendo uma agressão em uma mesma noite. Algo que posso confessar apenas aqui. Pois não consigo contar a ninguém. 

Após uma reunião, um “amigo” me convidou para ir em sua casa. Nos embebedamos, e ainda bebi uma cachaça batizada com maconha. Por duas vezes, ele mandou que eu o masturbasse. Nas duas vezes eu rejeitei sua oferta, sendo que nesta segunda vez, eu fui embora. Mas antes ocorreu a parte mais assustadora para mim. Esse “amigo” teve um surto psicótico. Gritava, xingava, e pensei que fosse me agredir. Ele teve uma alucinação: pensou que tinha mais um homem alí e disse que iria mata-lo.

Contou que fez sexo com uma travesti. Disse que a agrediu enquanto fazia sexo com ela, pois não sabia que ela era na verdade travesti.

Eu sei porque aconteceu aquilo, de ele pedir que o masturbasse. Todos sabem que sou gay, e o preconceito que se põe sobre a homossexualidade destrói aquele que é gay. A ideia do sexo fácil, da promiscuidade, do ser afeminado, faz com que as pessoas olhem para você intimamente da pior forma possível, e inclusive, passe a querer agir com você com as intenções mais escusas. Te vêem como um lixo, um pedaço de carne de quinta categoria que pode ser comido, cuspido e destruído a bel prazer de pessoas que praticam o mal hipocritamente ou mesmo descaradamente. 

Senti a Hannah​ na banheira cortando os pulsos. Senti a alma morrer lentamente. Pois a morte suicida e lenta é a agonia mais sofrida que um homem pode sofrer, pois é um rito esquizofrênico de contemplação do próprio sofrimento que viveu por tanto tempo, até cruzar as veias dos pulsos com uma gilete.

Hoje acordei atordoado com a lembrança do desastre ao qual fui acometido. Neste momento estou com sintomas que podem ser qualificados como estresse pós traumático. Seria como se tivesse sofrido um acidente ou um assalto. Trabalhei à pulso. Depois do trabalho, resolvi fazer caminhada. Enquanto andava, escrevi isso.

Quando acontece algo com você, tem-se duas alternativas: enfrentar ou fugir. Pode parecer simples demais, mas qualquer coisa que faça ou é uma forma de enfrentamento ou de fuga. Na maioria das vezes, mesmo que sutilmente, eu fugi. Mas há momentos em que a melhor alternativa é enfrentar. E minha arma é a verdade e a palavra. Minha verdade é meu âmago, e quando se torna base de meu caráter, torna meu espírito indestrutível. Vi muitos amigos gays se inspirarem na música indestrutível, da Pablo Vittar. Ainda não ouvi, e vou ouvir para entender. Boa parte dos suicídios estão entre jovens gays. Mas o suicídio é precedido pelo sentimento de solidão, fracasso e indefesa e isto ocorre não importa o quão popular e amado pareça ser, pois vivemos de avatares, às vezes não parecemos o que realmente somos. E essa é a pior parte, pois vivemos aprisionados a nós mesmos. É a mais angustiante das clausuras. 

Mas, ao contrário da Hannah, pretendo continuar vivendo. Precisamos romper o silêncio e este rompirá com nossas clausuras, precisamos fazer com que o mundo nos ouça e nos fortaleça em vez de nos enfraquecer. É enfrentando o mundo, que ficamos fortes para nele viver.

Não foi Deus o culpado

Noite sangrenta em Paris. Terroristas transformaram a cidade-luz em um território negro e sombrio. Corpos inocentes tombavam na noite parisiense para saciar a sede de ódio, travestida de vingança e desagravo a uma religião. Mentira! Não é a religião a culpada, é a estupidez.

Noites turbulentas no Brasil. Pseudo-líderes religiosos demonizam pessoas. Seus ‘crimes’? Aceitarem-se como tais, viverem sua diversidade sexual, e assumir sua identidade de gênero, pedindo ao estado “apenas” o que é de direito: dignidade. E motivados por essa demonização, pessoas que seguem esses “líderes” matam, estupram, desrespeitam, agridem e lutam para que os LGBT’s não tenham direito a nada.

Separemos o joio do trigo. As divindades foram concebidas como norte espiritual, como meio de as pessoas buscarem plenitude de vida. O que vemos quando um homem pratica o mal contra seu semelhante motivado pela crença doentia por uma divindade, é buscar na fé um álibi para sua perversidade.

Pois o mal advém de quem o atua, e retrata claramente como sua crença se distorceu e se desvirtuou da convivência pacífica e harmoniosa com seus pares.
Pois o que todas as crenças tem em comum são valores, e muitos desses valores podem ser cultivados até mesmo sem a crença.

Mas a fé busca trazer a nós uma motivação que nos põe além de nossos limites auto-conhecidos. E ao usarmos esta motivação como razão de dolo a outrem, simplesmente contradizemos a estes valores.

Todas as divindades carregam valores, e são valores aceitos por todos. Não devemos desvirtuar a crença para que esta crie monstros que destroem vidas em nome da fé.

Você não está sozinho

Você não está sozinho. Ao ouvir do próprio pai, que preferia ter um filho bandido a ter um filho(a) gay. Ao ter de ocultar de tudo e de todos os seus sentimentos. A não poder andar de mãos dadas, beijo, nem pensar. Ao ouvir risos de seus trejeitos, de sua voz, de seu jeito de ser.

Você não está sozinho. As caras feias que lhe mostram. As frases que lhe indignam. As opiniões que lhe desagradam. Aos pedidos infundados de decência. Ao abandono da família, de muitos amigos (que de fato não o são), das igrejas, do estado, do mundo.

Você não está sozinho. Está carregando injustamente todo mal e culpa do mundo. Está sendo usado como alvo para intriga e disputa de poder. Está amedrontado, estigmatizado, humilhado, muitas vezes agredido, sem defesa, sem merecimento de compaixão.

Você não está sozinho. Você foi levado na conversa, foi iludido, levado a uma emboscada, surrado, com as pernas quebradas, com o pescoço quebrado, jogado no matagal, com a boca cheia de papel, onde está escrito todo o ódio e estupidez ao qual um ser humano pode descarregar contra seu semelhante.

Você não está sozinho. Sua morte é um sinal de alerta. Um alerta de que um de nós não pode sofrer toda essa covardia sozinho em vão. De que você é um mártir que deve simbolizar em todos nós que a intolerância e barbárie precisam morrer, para nascer em nós a tolerância e o respeito ao próximo. Pois estamos cansados de ver amigos nossos tombando em solo mãe gentil sem que nada seja feito.

João Antônio Donati: você não está sozinho.

Acorrentado

Pensei que fosse mentira a história do adolescente preso a um poste por uma corrente no Rio de Janeiro. Realmente é inverossímil após conhecer a história inteira e saber que sim, um menor de idade foi agredido, despido e acorrentado a um poste de luz no Flamengo.
Mais incrível é imaginar o que passa na cabeça de cerca de trinta jovens fortes, em motos, para agredir gratuitamente menores de rua.
Difícil mesmo é crer que haja gente que dê razão para esses jovens agredirem menores e acorrentá-los, mesmo que indiretamente por meio das fascistas falas dos apresentadores de telejornais de porta de cadeia.
Me deixa incrédulo saber que os autores dessa atrocidade são brasileiros, que são tidos como pessoas alegres, hospitaleiras e pacíficas.

Olho ao redor, penso, e caio na real. É incrível, absurdo, mas é verdade, o vazio que nos rodeia, a ponto de achar banal.

Agora sinto o pouco da dor que esse menino sentiu. Agora percebo que a cada golpe por ele sofrido, aumenta o desencanto e com ele a necessidade de mudarmos de postura. Temos que acabar com esse mal chamado indiferença. Temos que deixar de achar o mal normal.

E para isso, o medo não deve prevalecer.

Semeadores de ódio

Ontem ocorreram diversos eventos que marcaram a semana. Entre o futebol e a morte de Osama Bin Laden, fico com a intersecção dos temas falando sobre o ódio. Sempre digo que o ódio é um sentimento de auto-defesa contra algo que acreditamos ser uma ameaça, e que na maioria dos casos, esse ódio é injustificável, pois se utilizam de argumentos falsos ou procuram não conhecer aquilo que odeiam, para que possam entender o seu sentimento e até mesmo mudar sua percepção.

Neste cenário temos os semeadores de ódio, sua figura mais nefasta. Sua função é disseminar o ódio contra algo mesmo com argumentos falsos ou insipientes. E a internet se tornou uma das ferramentas de disseminação de ódio mais utilizadas. Ontem tivemos dois exemplos disso. Um perfil falso no Twitter publicou mensagens de cunho racista e homofóbico contra a torcida do Flamengo durante e após o jogo em que se sagrou campeão carioca ao bater o Vasco nos pênaltis. Os jogadores do Palmeiras, sobretudo Kleber, insultaram os torcedores do Corinthians após a derrota nos pênaltis.

Esse tipo de comportamento é intolerável e é mais grave quando o ódio provém de formadores de opinião e ídolos. Quem possui fã deve ser responsável por seus atos e palavras, pois estes tem o poder de ser formadores de opinião. E estes atos se tornam sementes de ódio e hostilidades que precisam ser contidos para que não motivem atos de violência.

O caso do perfil falso no Twitter hostilizando flamenguistas, é de um comportamento insano e covarde. Nota-se que se usa do expediente do anonimato para espalhar mensagens de ódio com o intuito claro de transgredir normas de respeito mútuo e de convivência social, num ato claro de covardia. Os atores de atos como esses, similares aos praticados por vândalos e pichadores dá ao transgressor a pseudo-sensação de poder pelo feito que obteve, mas trata-se de pessoas doentes e emocionalmente desequilibradas pela sensação permanente de fracasso pessoal e necessidade permanentemente frustrada de auto-afirmação.

O caso de Osama Bin Laden é similar a de outras figuras históricas que procuraram manipular pessoas para atender seus interesses ideológicos. Ao deturpar as palavras do alcorão para instituir uma intifada islâmica, e citando fatos historicamente superados como as cruzadas e a expulsão dos árabes da península ibérica, via-se claramente um processo de alienação ideológica com propósitos de disseminar o ódio contra o ocidente. A cultura islâmica deturpada pelo regime teocrático e ditatorial e a imensa desigualdade social nestes países contribuíram para agravar esse quadro. Assim, jovens árabes são seduzidos a aderir à causa terrorista de modo a ter sua família recompensada por seu “ato heroico”.

O ódio é um sentimento que se enfraqueceria se não houvessem os semeadores de ódio. Devemos ter a plena consciência de que alimentando estes sentimentos, podemos causar mal a nós mesmos. E para que estes sentimentos não surjam é preciso sabedoria para entender e serenidade para compreender os fatos, agindo de forma racional e coesa.